A Origem, uma janela metodológica
A Origem benjaminiana como imagem dialética, o fractal, o turbilhão e o freio de emergência da história.
6. A ORIGEM: UMA JANELA METODOLÓGICA
A ORIGEM – UMA JANELA METODOLÓGICA
6.0 Os 5 blocos anteriores descrevem diferentes faces da Primeira República vistos através da categoria benjaminiana da Origem. Essa abordagem é necessariamente incompleta, outras perspectivas poderiam ser utilizadas. Para Benjamin, a Origem não é apenas o início de algo nem sua gênese, mas sim o aparecimento histórico de um fenômeno extremamente dinâmico onde vários fios do passado se emaranham e cristalizam, atingindo o tempo presente, desdobrando-se no futuro. A Origem é sempre móvel e incompleta, um turbilhão, como diz WB. Nesse turbilhão se mesclam restos e projetos, conflitos e solidariedades, ruína e redenção. O conceito de Origem de Walter Benjamin surge em oposição direta à noção de um tempo linear conduzindo inevitavelmente ao progresso. A Origem é um processo histórico de aparecimento no tempo, o lugar crítico onde um fenômeno complexo se apresenta, definido por uma diversidade de aspectos, onde devir e perecer se mesclam, formando uma constelação. Fragmentos distantes são reunidos produzindo uma nova unidade de sentido. A constelação da Origem é uma imagem dialética. Benjamin escreve: “Não é que o passado lance sua luz sobre o presente ou o presente sobre o passado; a imagem é aquilo em que o Outrora se encontra com o Agora num lampejo para formar uma constelação.”(frag.[N3,1])
6.1 Constelação da Origem como imagem dialética
Examinar a fisionomia dessa constelação é o que constitui a abordagem da Primeira República através da Origem. A Origem não é apenas um ponto inaugural numa linha cronológica homogênea. Ao nomear a Origem como “imagem dialética”, Benjamin define sua característica híbrida, complexa, reveladora de uma diversidade de forças históricas que se entrelaçam e se tensionam em constante movimento. O historiador examina a imagem dialética formada pela Origem como o snapshot de uma determinada configuração apreendida num lampejo, é preciso parar o movimento do turbilhão original para abordá-lo enquanto dialética em suspensão. A imagem dialética, diz Benjamin “é o salto (Sprung) do tigre, onde a relação entre passado e presente é extraída da continuidade temporal”. A Origem é um cluster histórico e temporal, não apenas o resultado de processos lineares separados, tais quais a causa econômica, causas sociais, causas culturais etc. que constituem a perspectiva historicista tradicional. A multicausalidade historicista aborda um feixe separável de causas individualizadas e uniformes, levando a um evento fixo que emerge pronto na cronologia. É como se esses feixes fossem definidos por uma geometria euclidiana cujas dimensões são números inteiros. Certamente que esses feixes causais existem, mas na perspectiva da Origem são articulados de outra forma.
Enquanto Origem, o fenômeno resultante é múltiplo e não uniforme. Não há feixes causais uniformes, a condição é de “turbilhão”. Trata-se de uma mescla de temporalidades, vozes ocultas pela história oficial, fragmentos que relampejam irreversivelmente, no momento em que são reconhecidos formando o desenho de uma constelação. A Origem é sempre inacabada porque em constante movimento, agregando novos aspectos e desfazendo-se de outros. As diferentes causas são misturadas e estilhaçadas na fisionomia do fenômeno histórico, se chocando e fluindo dinamicamente, avançando para o futuro, criando nós temporais heterogêneos, estagnando alguns circuitos, arruinando outros, ressuscitando ocultamentos. Os fenômenos históricos sob a ótica da Origem benjaminiana constituem uma fisionomia fractal, conforme a geometria fractal de Mandelbrot.
6.2 Origem e autossimilaridade do fractal
Seu desdobramento temporal revela aspectos de autossimilaridade, de tal maneira que, apesar de padrões complexos em constante movimento, uma ordem subjacente é revelada. A geometria fractal trabalha com frações. O mesmo elemento dos feixes uniformes de números inteiros da abordagem historicista, no sistema complexo dos fractais pode ter uma dimensão 0,75 ou qualquer outra fração, elevando o grau de sensibilidade à complexidade da imagem apresentada na constelação da Origem. Pequenas variações na estrutura, detalhes quase imperceptíveis, podem gerar transformações importantes no sistema geral. Na geometria fractal os nós, ou pontos de encontro e bifurcação entre os múltiplos elementos constituindo o surgimento de um fenômeno histórico se repetem em diferentes escalas, produzindo uma rede de complexidade infinita que se desdobra temporalmente.
6.3 A Origem nunca será um evento único. As estrelas podem ser fixas, como os fatos efetivamente ocorridos o são: abandono do projeto do porto de Torres na Primeira República, a manipulação fiscal etc. No entanto, o desenho da constelação é móvel dependendo da configuração do presente que olha para as estrelas. O desenho final pode ser alterado a qualquer momento, dependendo de quais pontos fixos serão agregados e quais abandonados ao se configurar uma determinada constelação da Origem. Como as coordenadas do presente são variáveis a imagem torna-se altamente dinâmica, pois ela depende da sua conhecibilidade no presente. E será sempre incompleta porque seria impossível convocar todas as estrelas, ou seja, todos os fatos ocorridos, para o desenho de uma constelação original. Enquanto cluster de fractais, os diferentes elementos fixos (cada fractal gerado) guardam sempre uma relação de autossimilaridade com a totalidade da imagem formada e entre todos os outros elementos participantes da constelação. Essa relação de autossimilaridade se mantém através de diferentes escalas, dimensões e esferas, como nos exemplos acima: portos, educação, arquitetura, conflitos armados, todos remetem a uma totalidade autossimilar que os reconhece e acomoda nas suas diversidades fractais.
6.4 O freio emergencial da história
Os pontos são interligados por conexões, formando nós. Alguns podem ser desfeitos, outros necessitam que se corte os fios que levam à conexão. A forma de cortar um nó ou interromper algum elemento da fisionomia original do fenômeno em seu desdobramento histórico é chamada por Benjamin de “puxar o freio de emergência da história”. Às vezes a parada do trem da história é positiva e abre a possiblidade de que um caminho alternativo possa ser percorrido, outras, o trem pode descarrilhar e o desastre será ainda maior. No caso da Primeira República, sua promulgação corresponde a essa puxada de freio em relação ao regime anterior. Não foi um processo orgânico, mas sim algo forçado e artificial. Envolveu conspiração, traição, ocultamento, rancores pessoais, ambição, falta de compreensão e desprezo pela identidade nacional. Os móveis para a puxada de freio também podem ser abordados pela categoria da Origem e, de uma certa forma, contribuem para a formação da imagem original da Primeira República. Essa é uma das razões pela qual Benjamin diz que a categoria da Origem é sempre inacabada. Uma infinidade de imagens dialéticas originais da Primeira República podem ser geradas, dependendo do presente que se choca com esse passado, e também dos fragmentos particulares que encontram o presente.
6.5 Uma puxada de freio: A revolução de 30
A Revolução de 30 foi uma tentativa de ruptura com a Origem. Vargas não apenas interrompia a dobradinha “Café com Leite” como resgatava a presença do Rio Grande do Sul na política nacional. O presidente Washington Luís, um paulista, tentou passar por cima dos mineiros interrompendo a alternância de poder e indicou outro paulista, Júlio Prestes, para presidente. Prestes foi eleito, mas a Aliança Liberal constatou “fraude eleitoral”, uma das estrelas fixas na constelação da Origem. Vargas aliou-se aos mineiros e, em 24 de outubro, Washington Luís foi deposto por uma junta militar impedindo o paulista de tomar posse. Houve movimentos militares em todo o país. A 3 de novembro de 1930 a junta governista provisória transmitiu formalmente o poder a Getúlio Vargas. Terminava a Primeira República, mas a Origem seguiu ativa nos seus desdobramentos. Principalmente porque a própria Origem da carreira política de Vargas estava vinculada à Origem da Primeira República. Seu pai, Manuel do Nascimento Vargas, fora um dos mais íntimos colaboradores de Castilhos, participando de conspirações no Uruguai para a sua tomada de poder. Posteriormente, lutou com ferocidade para preservá-lo, lado a lado com as tropas florianistas. Getúlio se apresentava como um conciliador das diferenças entre maragatos e castilhistas. Sua mãe era irmã de Dinarte Dornelles, um líder maragato que lutou bravamente contra os castilhistas. No entanto, prevaleceu a afinidade com a dinâmica paterna. Dificilmente Getúlio poderia escapar à sua Origem política. Golpes, ditadura, o cunho fascista dos anos 30, estavam em plena sintonia com sua origem castilhista. Há inclusive uma irônica coincidência de datas nessa puxada de freio emergencial por Getúlio. Ele próprio estava encapsulado nessa Origem e apenas parcialmente conseguiu percorrer caminhos alternativos.
O Estado queria ser Novo, mas acabou replicando formas originais. Não se trata de um determinismo, mas de escolhas, discernimento e circunstâncias, o homem inteiro é requisitado para despertar a pequena força messiânica que o passado reclama e necessita para resgatar o que poderia ter sido. A Origem se replica na simetria de seus fractais[1]. As regras podem ser simples ou complexas, mas são racionais. 24 de outubro, dia da deposição de Washington Luís que traiu seu compromisso com Minas Gerais, porta de entrada para a aliança entre Vargas e os mineiros, foi também o dia da morte de Castilhos, Origem do poder político da família Vargas. Castilhos traiu vários companheiros e compromissos na sua luta pelo poder. Gradualmente Vargas se afastaria dos seus aliados mineiros, indispensáveis para sua tomada de poder em 3 de novembro. Essa data é mais uma assinatura da Origem com a qual ele não romperia, um fractal. Foi num 3 de novembro que Deodoro fechou o congresso, prendeu lideranças políticas e decretou estado de sítio. Vargas governaria sem o congresso por 12 anos, em dois períodos distintos. Getúlio governava conforme a constituição estadual de Castilhos, concentrando as funções do legislativo e do executivo. Paulistas se revoltaram, mineiros abandonados assinaram uma carta aberta pedindo a extinção do Estado Novo. Incapaz de romper com sua Origem pessoal, Vargas sucumbiu à ditadura original. Toda história tem sua pré-história (e pós-história) pois a Origem é a um tempo restituição e incompletude. Tentando originar um caminho novo para a República brasileira, Vargas protagonizou um fractal da própria Primeira República e da pós-história castilhista, enquanto Castilhos foi parte da pré-história de Vargas. Embora não seja um determinismo, a Origem define um condicionamento, uma constelação que se desdobra no tempo, movendo-se num turbilhão temporal, provocando o choque entre passados, presentes e futuros que se fractalizam entre si. A corrupção que invadiu o governo Vargas lança um olhar para a corrupção que acabou derrubando Deodoro. Romper com os fractais da Origem no seu desdobramento histórico, na linguagem de Benjamin, é um feito praticamente messiânico. O suicídio de Vargas é uma das mais dramáticas puxadas do freio emergencial finalizando a sua tentativa de interromper o trem original da Primeira República.
6.6 Utilizar o conceito de Origem como janela metodológica para abordar fenômenos complexos, como Primeira República, Estado Novo, ou qualquer outro, não substitui análises específicas de fenômenos históricos. Seu sentido fundamental é mostrar como fragmentos de eventos passados se desdobram no tempo, chocam-se com o presente, avançam sobre o futuro, gerando padrões de autossimilaridade reconhecíveis que escapam a uma causalidade fixa. A mutabilidade e incompletude da Origem permitem alterar esses padrões fractais, transformando-os em novos turbilhões originais de caminhos alternativos, restituindo passados adormecidos. Essa possibilidade reside na pequena força messiânica que cada um de nós recebe ao escutar um chamado do passado. Benjamin escreve: “Há um encontro entre as gerações do passado e a nossa porque fomos esperados na face da terra. Nos é dado saber que, como em toda a geração antes da nossa, há uma pequena força messiânica que o passado reclama. Esta demanda do passado sobre nós não pode ser tratada superficialmente.”
1. Na simetria as formas se mantêm idênticas através de transformações que seguem regras determinadas. Revertendo as regras aplicadas (que são matematicamente precisas) às figuras aparentemente diversas, a identidade original entre elas se apresenta. A metáfora geométrica adequa-se aos fenômenos da Origem, gerando a fractalização, enquanto variantes históricas. Num outro ponto discute-se “simetria” mais detidamente. ?