C Cadernos de Antônia1889 — 1930

O Projeto

Aplicação da teoria da História de Walter Benjamin a fatos da Primeira República brasileira, na sua pré e pós-história, com ensaios e ficção sobre a época e seu contexto internacional.

Os cadernos de Antônia

Antônia é a irmã mais velha. Guarda cadernos de capa de couro com as iniciais lavradas, e neles escreve à noite: alegorias que misturam o imaginário do pampa com a história do país e a sua decadência moral. Lê-as para o irmão pequeno, o Maneco, antes de dormir. Num dos cadernos cria um personagem — um filho rancoroso e gago, mandado estudar em São Paulo, que volta assim que termina a faculdade de direito, decidido a tratar a província como propriedade sua, porque as ovelhas e as mulas o seguiriam.

Este site tem o nome desses cadernos, e é mais um deles. Aqui ficam os fragmentos e o que se pode dizer sobre eles: um trecho de romance com o seu comentário, um ensaio, uma imagem. Antônia escrevia para uma pessoa só, e à noite. É mais ou menos assim que se lê.

Guerras da República

Em novembro de 1889 a elite brasileira dança no último baile do Império e o país amanhece República. Três livros seguem o que essa mudança de regime produziu no Rio Grande do Sul, através da história de uma família, até 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, fazendo uma única pergunta: o que acontece com as pessoas, e com um país, quando uma guerra justa é perdida e a injustiça continua sob um nome diferente?

Uma cilada de ideais, título do primeiro capítulo do Livro Primeiro, resume aquilo que foi a instauração da República no Brasil. Os dois livros seguintes ampliam essa ideia, fazendo referência em seus títulos ao poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, e à obra de Robert Musil, O homem sem qualidades.

A trilogia é um romance. As datas, as batalhas e os documentos são o que a pesquisa apurou; a história da família é ficção construída sobre esse fundo. Mas as figuras históricas, sem deixarem de ser históricas, tornam-se também personagens e passam a habitar o universo ficcional do livro: nenhum documento diz o que ia na cabeça de Júlio de Castilhos, nem que Honorina via no espelho o duplo do marido — o menino bexiguento que ele fora, a rejeição que lhe animava a vontade de poder —, nem que Júlio conversaria com Gabriel no inferno. Documenta-se o que os homens fizeram; imagina-se o que pensavam enquanto o faziam.

Nossa Vendeia

Euclides da Cunha chamou Canudos de a nossa Vendeia. A frase é tomada aqui como imagem dialética no sentido de Walter Benjamin. Se a França fez sua revolução em 1789 e o Brasil em 1889, então a Vendeia de 1793 tem sua correspondência na Revolução Federalista de 1893. Canudos e a Revolução Federalista são lidos como duas fases de uma mesma Vendeia brasileira.

O interminável século XIX

A promessa de progresso linear formulada por Comte, industrializada por Saint-Simon, poetizada por Verne e exportada pelo imperialismo europeu trazia em si os instrumentos da sua própria destruição. Marcou a Primeira República na sua bandeira, Ordem e Progresso. Mas a racionalidade do progresso precisava de violência irracional. A ordem vinha antes do progresso. E a ordem custava sangue.

A pesquisa

A pesquisa que sustenta a trilogia foi feita viajando pelo Rio Grande do Sul, em arquivos, museus e bibliografia publicada, e em conversas com descendentes das famílias envolvidas.

A imagem

A biblioteca que abre o site é o Long Room da Old Library do Trinity College Dublin, em fotografia de Diliff, via Wikimedia Commons. A imagem foi modificada — alteração de cor — e é disponibilizada sob a mesma licença do original, CC BY-SA 4.0.

A autora

Miriam GD Freitas é autora da trilogia Guerras da República e de Noventa e três & Walter Benjamin. Escreve sobre história, literatura e filosofia.

contact@cadernosdeantonia.org