O baile e o boato
Folhetim número 1. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
*Romance de Miriam GD Freitas, publicado em folhetim semanal.*
*Livro Primeiro: a Revolução Federalista (1889-1893).*
I CAPÍTULO
UMA CILADA DE IDEAIS
“O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime.Tira o chapéu e passa.” Euclides da Cunha
O pampa é um rio de prata e sangue cercado de vácuo por todos os lados. Numa outra dimensão, num outro universo, esvai-se o Rio Grande, pântano obscuro de uma pátria que se extingue.
Enquanto a infâmia for a moeda corrente entre nós, as águas do Prata chorarão em vão a lama rio-grandense. Os quero-queros alçarão seus voos sobre as coxilhas, insistindo sempre num desejo insatisfeito, num querer mais abrangente. O lenço colorado acenderá o fogo nos galpões, colorindo o calor das labaredas, traçando signos na memória. As sementes desaparecerão e renascerão e, mais uma vez, desaparecerão para
renascer no fundo escuro dos corações. Enquanto a infâmia for a moeda corrente entre nós, as nuvens não encontrarão suas formas, as lagoas não alimentarão os seus peixes, e os grãos jamais serão suficientes. Cavalares, vacuns, ovinos serão como peças mortas sobre o verde desmaiado e o cruzeiro perderá o seu Sul. O vento frio atravessará gerações carregando o sonho maragato de justiça e liberdade, tarefa inconclusa do gaúcho. E o Brasil, sem chão, será como uma quimera enterrando seus ovos de ouro na ilha fantástica dos corruptos.
Rio de Janeiro
Três navios ancorados na baía de Guanabara. O Encouraçado Cochrane, do Chile, o Encouraçado Aquidabã, do Brasil e o Encouraçado Riachuelo, também brasileiro. Seus poderosos refletores iluminam pontos da cidade, criando um espetáculo nunca visto. A ilha está acesa num show de eletricidade. Palmeiras artificiais decoram os terraços. Uma multidão de
nobres e convidados reúne-se num terraço para a recepção que homenageia a oficialidade chilena. Inicialmente marcado para o mês anterior, o baile havia sido transferido por causa da doença de Sua Alteza Real de Portugal, D. Luís, sobrinho do Imperador. Depois de seu falecimento, finalmente, poderia celebrar-se essa festa inesquecível produzida pelo presidente do conselho de ministros, o Visconde de Ouro Preto. Nobres e convidados conversam, dançam e riem. Música. Valsas, polcas, quadrilhas e mazurcas. Ao fundo, trechos de Verdi, Boccherini,
Auber, Metra e Waldteufel. Safiras, esmeraldas e brilhantes reluzem sobre os vestidos. Fantasia, luzes, valsa, luzes, minueto, luzes, valsa, luzes, fantasia, luzes, valsa. 800 quilos de camarões gigantes, 1.200 latas de aspargos, luzes, 64 faisões, luzes, 500 perus, 800 latas de trufas, luzes.
Fantasia, luzes, valsa, luzes, minuano, luzes, valsa, luzes, fantasia, luzes, valsa. E muito mais. Ouro Preto orgulha-se do show de eletricidade, primeiro e único em sua grandeza, em toda a América do Sul. No grupo próximo ao Imperador, o Conde d’Eu comenta:
- Veja, (olhando na direção de um convidado negro) o engenheiro Rebouças não dançou com ninguém até agora, talvez não ouse convidar uma mulher branca.
A Princesa Isabel reage imediatamente ao comentário, levanta-se e vai até o engenheiro civil André Rebouças, um dos poucos negros do baile. Convida-o para dançar:
- Senhor engenheiro André Rebouças, concede-me a honra desta dança?
André Rebouças aceita o convite. Ele e a Princesa Isabel saem valsando. O Imperador D. Pedro II, sentado, cercado por seus próximos, fardado como almirante, está doente. Muito cansado. Dançará uma única vez com uma menina de 15 anos. Teria quase caído ao entrar no baile ? Neste caso, diria:
- O monarca tropeçou, mas a Monarqua não caiu.
No alojamento de soldados em um quartel, um soldado aproxima-se de outro e passa uma notícia:
- Prenderam o generalíssimo Deodoro.
Outro soldado aproxima-se de um outro e espalha o boato:
- O generalíssimo Deodoro foi preso.
E os soldados espalham para os soldados, que espalham para os soldados, dando seguimento a uma atividade constante e generalizada na capital do país. Espalham rumores.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
- O Generalíssimo foi preso.
No interior do Clube Militar, o Tenente Coronel Benjamin Constant, 53 anos, exorta os soldados num discurso republicano e positivista:
- Na ausência de nosso presidente, o Generalíssimo Deodoro, eu, como vice-presidente do Clube Militar, comprometo-me, sob palavra de honra,
que, se não tirar a classe militar deste estado de coisas que é incompatível com sua honra e dignidade, renuncio a tudo e quebro a minha espada.
Após o discurso, 116 oficiais fazem fila para assinar com o próprio sangue um documento que está sobre uma mesa. Benjamin Constant anuncia :
- Este é o nosso pacto de sangue, que implica morrermos lutando pela República, caso seja necessário.
Terminada a cerimônia, Benjamin Constant volta para casa, onde a família o aguarda. Eles querem ir ao baile da ilha. Tentam, mas, como não foram convidados, sem os ingressos, não são admitidos. Se não querem, então por que querem ? Ou não querem justamente porque querem ? Ou, simplesmente, querem ? 800 quilos de honra, dignidade, coisas, fardas, 18 pavões, 64 faisões, 700 botões ? Quebram espadas, sangram os dedos por este Estado ? De coisas ?
Hora de promover uma reunião na casa de Deodoro, adoentado, peito coberto de cataplasmas, Deodoro, que nunca estivera preso. Ali se encontram o Generalíssimo, 62 anos, Benjamin Constant, Rui Barbosa, 42 anos, Quintino Bocaiuva, 53 anos, Aristides Lobo, 51 anos, Francisco Glicerio, 43 anos, e Solon Ribeiro, 50 anos.
- Generalíssimo, diz Benjamin Constant, há rumores sobre a sua prisão. O senhor, como comandante das forças armadas, precisa dissolver o ministério do Visconde de Ouro Preto.
- O ataque do Visconde de Ouro Preto ao exército precisa ser detido, diz Solon Ribeiro.
- Eu, preso? Sou um amigo do Imperador. Ando acamado, mas preso, não!
- Considere a extensão da sabotagem às forças armadas promovida pelo Visconde De Ouro Preto, diz Aristides Lobo. Precisamos reagir o quanto antes. Basta de redução do orçamento para os militares.
- A crise chegou a tal ponto que a única saída é a dissolução do ministério, diz Rui Barbosa.
- E, se cair o ministério, cai o regime, diz Benjamin.
- Já fui apoiador da Monarquia, diz Rui. Mas o ministério Ouro Preto é a quinta essência do palacianismo. Excede qualquer limite da imaginação,
mesmo nos espíritos mais pessimistas. Nesse regime, as transformações que se fazem necessárias para o desenvolvimento de nossa pátria são impossíveis.
- A República deve ser declarada para sanar os males da Monarquia, diz Benjamin.
- Entendo a necessidade da queda do ministério, mas não vejo necessidade da queda da Monarquia, diz Deodoro.
- Os males do ministério do Visconde são apenas uma expressão dos males da Monarquia.
- Se os rumores continuarem, e a situação não se modificar, eu vos prometo a dissolução do ministério do Visconde de Ouro Preto e sua prisão. Quanto à declaração da República...
- A Monarquia é um regime criminoso. Só numa República se concretiza a igualdade de todos os cidadãos, diz Quintino Bocaiúva.
- Viver pelos outros, viver em todos e cada um como sentimos nossos semelhantes viverem em nós mesmos, eis o verdadeiro destino do homem, diz o positivista Benjamin. A Monarquia separa os homens em
nobres e não nobres pelo nascimento. O ideal seria que o próprio Imperador declarasse a República do Brasil.
- A República deve alargar e consolidar a liberdade, não tem de se coser na pele das antigas reações, diz Rui.
- Antes de sermos soldados, somos cidadãos. Somos soldados-cidadãos. A cidadania só se realiza plenamente numa República, diz Benjamin.
12 de novembro 1889.
Visconde de Ouro Preto em reunião com o Ministro da Guerra e com o Ministro da Justiça.
- Tenho recebido avisos anônimos de que alguma coisa se trama nos corpos da Segunda Brigada.
- Conversei com o Marechal Floriano Peixoto e ele me assegurou que está tudo em paz.
- Então são apenas rumores?
- Podemos ficar tranquilos, diz o outro ministro, porque temos a palavra do ajudante general do exército, Marechal Floriano, segunda autoridade
militar.
***Continua no próximo número:** o Imperador chamará Silveira Martins — o velho rival de Deodoro, o homem que lhe ganhava todas — para salvar o Ministério. E o amigo do peito do Imperador, que não queria República nenhuma, montará a cavalo.*
Caderno de notas
O baile da Ilha Fiscal, em 9 de novembro de 1889, foi a última festa da Monarquia — 800 quilos de camarões e um show de eletricidade inédito na América do Sul, seis dias antes da República. A cena da princesa Isabel valsando com o engenheiro negro André Rebouças é histórica. O boato da prisão de Deodoro, espalhado de quartel em quartel, fez mais pela República do que qualquer programa: a história também se move pelo que não aconteceu.