C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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O baile e o boato

Folhetim número 1. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

Excertos publicados em folhetim.

Onde estamos

Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1889. A corte dá uma festa na Ilha Fiscal para homenagear os oficiais de um navio chileno. É a última festa do Império, e ninguém ali sabe disso. Seis dias depois não haverá mais Império.

Enquanto se dança, corre um boato pelos quartéis.

Rio de Janeiro

Três navios ancorados na baía de Guanabara. O Encouraçado Cochrane, do Chile, o Encouraçado Aquidabã, do Brasil e o Encouraçado Riachuelo, também brasileiro. Seus poderosos refletores iluminam pontos da cidade, criando um espetáculo nunca visto. A ilha está acesa num show de eletricidade. Palmeiras artificiais decoram os terraços. Uma multidão de nobres e convidados reúne-se num terraço para a recepção que homenageia a oficialidade chilena. Inicialmente marcado para o mês anterior, o baile havia sido transferido por causa da doença de Sua Alteza Real de Portugal, D. Luís, sobrinho do Imperador. Depois de seu falecimento, finalmente, poderia celebrar-se essa festa inesquecível produzida pelo presidente do conselho de ministros, o Visconde de Ouro Preto.

Nobres e convidados conversam, dançam e riem. Música. Valsas, polcas, quadrilhas e mazurcas. Ao fundo, trechos de Verdi, Boccherini, Auber, Metra e Waldteufel. Safiras, esmeraldas e brilhantes reluzem sobre os vestidos. Fantasia, luzes, valsa, luzes, minueto, luzes, valsa, luzes, fantasia, luzes, valsa. 800 quilos de camarões gigantes, 1.200 latas de aspargos, luzes, 64 faisões, luzes, 500 perus, 800 latas de trufas, luzes.

Fantasia, luzes, valsa, luzes, minuano, luzes, valsa, luzes, fantasia, luzes, valsa. E muito mais. Ouro Preto orgulha-se do show de eletricidade, primeiro e único em sua grandeza, em toda a América do Sul.

No grupo próximo ao Imperador, o Conde d'Eu comenta:

— Veja, (olhando na direção de um convidado negro) o engenheiro Rebouças não dançou com ninguém até agora, talvez não ouse convidar uma mulher branca.

A Princesa Isabel reage imediatamente ao comentário, levanta-se e vai até o engenheiro civil André Rebouças, um dos poucos negros do baile. Convida-o para dançar:

— Senhor engenheiro André Rebouças, concede-me a honra desta dança?

André Rebouças aceita o convite. Ele e a Princesa Isabel saem valsando.

O Imperador D. Pedro II, sentado, cercado por seus próximos, fardado como almirante, está doente. Muito cansado. Dançará uma única vez com uma menina de 15 anos. Teria quase caído ao entrar no baile? Neste caso, diria:

— O monarca tropeçou, mas a Monarquia não caiu.

No alojamento de soldados em um quartel, um soldado aproxima-se de outro e passa uma notícia:

— Prenderam o generalíssimo Deodoro.

Outro soldado aproxima-se de um outro e espalha o boato:

— O generalíssimo Deodoro foi preso.

E os soldados espalham para os soldados, que espalham para os soldados, dando seguimento a uma atividade constante e generalizada na capital do país: espalhar boatos.

— O Generalíssimo foi preso.

— O Generalíssimo foi preso.

— O Generalíssimo foi preso.

— O Generalíssimo foi preso.

— O Generalíssimo foi preso.

Continua no próximo número: cento e dezesseis oficiais assinam com o próprio sangue. E Deodoro, que nunca estivera preso, recebe em casa os homens que vão lhe pedir uma República que ele não quer.

Caderno de notas

O baile da Ilha Fiscal, em 9 de novembro de 1889, foi a última festa da Monarquia. Oitocentos quilos de camarões e um show de eletricidade inédito na América do Sul, seis dias antes da República.

A cena da princesa Isabel valsando com o engenheiro negro André Rebouças é histórica. Ela abolira a escravidão no ano anterior, e Rebouças fora um dos artífices da abolição. Ele seguiu a família imperial no exílio e morreu na Ilha da Madeira, quatro anos depois desta noite.

O boato da prisão de Deodoro é o motor de tudo o que virá. Não era verdade: Deodoro estava em casa, doente, com o peito coberto de cataplasmas, e era amigo pessoal do Imperador. Mas o boato correu de quartel em quartel e fez mais pela República do que qualquer programa. A história também se move pelo que não aconteceu.

Como o livro começa

O Livro Primeiro não abre pelo baile. Abre assim:

> "O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu e passa."

> — Euclides da Cunha

O pampa é um rio de prata e sangue cercado de vácuo por todos os lados. Numa outra dimensão, num outro universo, esvai-se o Rio Grande, pântano obscuro de uma pátria que se extingue.

Enquanto a infâmia for a moeda corrente entre nós, as águas do Prata chorarão em vão a lama rio-grandense. Os quero-queros alçarão seus voos sobre as coxilhas, insistindo sempre num desejo insatisfeito, num querer mais abrangente. O lenço colorado acenderá o fogo nos galpões, colorindo o calor das labaredas, traçando signos na memória. As sementes desaparecerão e renascerão e, mais uma vez, desaparecerão para renascer no fundo escuro dos corações.

Enquanto a infâmia for a moeda corrente entre nós, as nuvens não encontrarão suas formas, as lagoas não alimentarão os seus peixes, e os grãos jamais serão suficientes. Cavalares, vacuns, ovinos serão como peças mortas sobre o verde desmaiado e o cruzeiro perderá o seu Sul. O vento frio atravessará gerações carregando o sonho maragato de justiça e liberdade, tarefa inconclusa do gaúcho. E o Brasil, sem chão, será como uma quimera enterrando seus ovos de ouro na ilha fantástica dos corruptos.