C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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A cada um o seu mito

A República era doutrina de academias e quartéis, alheia à população: a ruptura entre a elite intelectual e o povo, e as duas mitologias que dela nasceram.

A frase que ficou é de Aristides Lobo: o povo assistiu a tudo bestializado. Escreveu-a poucos dias depois do 15 de novembro, e ela atravessou o século — repetida como diagnóstico, como piada, como lamento sobre o caráter nacional.

Convém lembrar quem a escreveu. Aristides Lobo é um dos sete homens que estiveram em casa de Deodoro pedindo-lhe que derrubasse o regime. Estava dentro da sala onde a República foi decidida. A observação sobre a ausência do povo é do homem que ajudou a fazê-la sem ele.

E convém desconfiar da palavra. Bestializado diz que o povo não entendeu. É possível que ele tenha entendido muito bem, e que estivesse noutro lugar.

Uma doutrina, e onde ela morava

A República não era um sentimento difuso do país. Era uma ideologia, com sede, doutrina e público definidos.

Morava em dois lugares. Nas academias e na imprensa — os bacharéis, os jornalistas, os homens de letras que discutiam Comte, Littré, a Grande Revolução. E na Escola Militar, onde Benjamin Constant ensinava positivismo aos cadetes. Fora desses dois lugares, ela não tinha praticamente onde apoiar-se.

Isso não é uma acusação: é uma descrição. E explica o resto. Uma doutrina que vive em academias e quartéis dispõe de canhões e de jornais, e não precisa de votos. Foi assim que ela fez o que fez, em uma manhã, com um boato.

Do outro lado, o afeto

Enquanto isso, o país gostava do Imperador.

Gostava de um velho de sessenta e quatro anos que falava muitas línguas e se interessava por ciência, e cuja filha assinara, dezoito meses antes, a lei que acabou com a escravidão. Chamavam-na a Redentora. Não é preciso idealizar a Monarquia para reconhecer o fato: havia afeto, e o afeto tinha nomes próprios.

Foi exatamente esse afeto que os republicanos temeram. A família imperial saiu do Paço às três da manhã, escoltada, para que a cidade não acordasse. Não se retira às escondidas quem ninguém estima.

De modo que o povo não assistiu bestializado. Assistiu ao que lhe faziam, e os que faziam sabiam que ele assistiria mal — tanto que agiram de madrugada.

Duas mitologias, cada uma no seu salão

Aqui está a assimetria que interessa, e ela não é entre quem pensa e quem não pensa. É entre duas mitologias.

Os intelectuais olhavam para a França. Recolhiam da Grande Revolução as figuras que os transformavam em algo mais do que aspirantes ao poder: instrumentos da civilização. É outra coisa, e muda tudo. Quem quer o poder disputa-o e pode perdê-lo; quem é instrumento da civilização não disputa — cumpre. Foi por isso que assinaram pactos com o próprio sangue, e que um biógrafo admirador acharia elogioso comparar o seu herói a Robespierre.

E o povo? O povo também tinha os seus mitos, e ia buscá-los precisamente onde a doutrina não olhava: nos salões aristocráticos. Nos bailes, nas princesas, nos vestidos, nas cortes — no imaginário do Império que os republicanos consideravam atraso e que a imaginação popular guardou como esplendor.

A leitura, esta é minha e ofereço-a como leitura: as escolas de samba eternizaram essa nostalgia. Um desfile de carnaval é uma corte que passa. Alas de baianas com saias de corte, o casal de mestre-sala e porta-bandeira dançando uma dança de salão, os destaques em carros alegóricos, as fantasias de nobreza, os enredos de reis e rainhas. O povo que a República deixou de fora construiu para si, uma vez por ano, o baile a que nunca foi convidado — e faz cem anos que o desfila na rua.

Repare na simetria, porque ela é exata. A elite republicana foi buscar as suas fantasias na França de 1789. O povo foi buscar as dele nos salões de 1889. Os dois lados olhavam para uma corte. Só que uma das cortes tinha canhões.

O que persiste

Nada disto seria mais do que uma curiosidade histórica se tivesse ficado em 1889. Não ficou.

O que se instalou naquele momento, e não saiu mais, foi um hábito: o país acostumou-se a aceitar qualquer coisa, desde que embalada nas palavras certas.

As palavras certas estavam todas lá, desde o começo. Ordem e Progresso, na bandeira. Civilização. Patriotismo. A bandeira branca da paz e do amor — escrita por quem prometia, na mesma frase, a cólera irreprimível com que castigaria os criminosos, sejam eles quais forem. Os patriotas, que era como se autointitulavam as tropas civis que caíam sobre gente desarmada. A pacificação, nome dado ao acordo de 1895, que encerrou a guerra do Sul deixando no governo do estado o homem por cuja palavra de honra ela começara — e que serviria depois para descrever também o que se fez em Canudos.

Em cada um desses casos a palavra não descreve o ato: substitui-o. E funciona — funcionou então e funciona agora. É por isso que a ruptura entre discurso e realidade não é um defeito da nossa República: é o seu modo de operar. O regime nasceu dizendo uma coisa e fazendo outra, e ensinou que assim se faz.

Daí a importância dos princípios

E é aqui que a conversa deixa de ser sobre 1889.

Um princípio não é uma palavra bonita. Um princípio é aquilo que se pode invocar contra quem o proclama. Serve justamente para isso: para que o proclamador fique preso ao que disse. Se digo que a lei vale para todos, alguém pode vir cobrar-me quando eu abrir uma exceção — e a cobrança tem onde apoiar-se.

A palavra certa faz o oposto. Ela não prende ninguém: absolve. Chamar as milícias de patriotas não obriga a nada; dispensa. Chamar de pacificação o que se fez no Sul não compromete quem o disse: encerra o assunto — e mantém no mando o homem cuja palavra de honra, três anos antes, desarmara Bagé antes de entregá-la aos coronéis. O oficial que dera essa palavra chamava-se Arthur Oscar, e era coronel; cinco anos depois, já general, comandaria a chacina de Canudos.

A diferença entre um princípio e uma palavra certa é, portanto, a de sempre: um pode ser usado contra quem o diz, a outra não. Onde só há palavras certas, não há do que se cobrar — e um país onde não há do que se cobrar aceita tudo, desde que bem dito.

Foi o que se aprendeu em novembro de 1889, e continua sendo ensinado. O povo, aquele mesmo, nunca esteve bestializado. Passou o século ouvindo as palavras certas, e anestesiado para o que elas escondem.