C Cadernos de Antônia1889 — 1930

As duas famílias do livro

A trilogia é um romance. As datas, as batalhas e os documentos são o que a pesquisa apurou; a história da família é ficção construída sobre esse fundo. Mas as figuras históricas, sem deixarem de ser históricas, tornam-se também personagens e passam a habitar o universo ficcional do livro: nenhum documento diz o que ia na cabeça de Júlio de Castilhos, nem que Honorina via no espelho o duplo do marido — o menino bexiguento que ele fora, a rejeição que lhe animava a vontade de poder —, nem que Júlio conversaria com Gabriel no inferno. Documenta-se o que os homens fizeram; imagina-se o que pensavam enquanto o faziam.

As personagens da trilogia: quem é irmão de quem, quem está de que lado, e quem atravessa os três volumes. Sem contar o que acontece.

No princípio há um avô: o comendador, morto em 1888, um ano antes da República. Erudito perdido no meio do pampa, com uma grande biblioteca na fazenda. Conservador, recusou a Guarda Nacional quando o convidaram: só livros. Não aparece nos livros, é apenas mencionado — mas a família inteira vem dele.

Ficou cego, e as filhas passaram a ler para ele, revezando-se. Os homens saíam para o campo; elas estavam em casa, e por isso a tarefa lhes coube. Ninguém decidiu educá-las: a biblioteca inteira passou pelos olhos delas porque era preciso alguém para ler em voz alta. Foi assim que as mulheres desta história acabaram mais lidas do que os maridos, que lidavam com gado.

Teve muitos filhos, homens na maioria. No livro aparecem cinco: Pedro Manuel, Antônio Elias, José Bernardo, Oscar Ângelo e Tomás. Os dois primeiros casaram com duas irmãs. De um outro, João Belchior, só se ouve falar: lutou ao lado de Joca Tavares na guerra do Paraguai.

Pedro Manuel e Amália

Fazenda em Piratini. Quatro filhos: Almerinda, Aurora, Afonso — o Fonso — e Juca.

Pedro Manuel é o irmão mais velho, e o primeiro a morrer. Vai desarmado, levando os cavalos que lhe foram exigidos, e o filho Afonso é obrigado a olhar. É um assassinato exemplar: o recado que o Fonso leva para casa é que desapareçam, ou morrem todos.

Antônio Elias e Francisca

Fazenda em Arroyo Blanco, com terras até Vichadero, do outro lado da fronteira. Quatro filhos: Octaviano, Olinto, Antônia — a Tônia — e João Manuel, o Maneco.

Os outros três irmãos

José Bernardo era o intendente de Piratini quando Castilhos assumiu o governo, em 17 de junho de 1892. Assim que recebeu o telegrama — Castilhos no poder — mandou avisar os irmãos para que deixassem o Brasil, e partiu imediatamente para o Uruguai.

Oscar Ângelo e a mulher, Eunice. Partem de carreta para Bagé quando a ameaça se estende a toda a família.

Tomás resolve ficar em Piratini. Alguns dos homens que mataram Pedro Manuel ficaram chocados com o que fizeram — a traição, o homem desarmado, o filho obrigado a olhar — e apresentam-se a ele como testemunhas, para que houvesse julgamento.

Os dois casamentos

As duas famílias iam ligar-se duas vezes: a filha mais velha de uma com o filho mais velho da outra, e a segunda com o segundo.

Almerinda casa com Octaviano. Esse acontece, e ela não o queria: amava outro.

Aurora era noiva de Olinto. Esse não. Antônio Elias desfaz o noivado do próprio filho para casá-lo com Maria Dolores, filha de um caudilho uruguaio, em troca de um batalhão de homens dele para lutar ao lado dos maragatos. Não é só vingança pelo irmão morto: eles sabem o que Castilhos significa para o estado. O pai vende o casamento do filho por um batalhão, e Aurora perde o noivo para a guerra antes de perder qualquer coisa na guerra.

Antônia, a dos cadernos

A irmã mais velha da casa de Arroyo Blanco. Guarda cadernos de capa de couro com as iniciais lavradas e escreve neles à noite: alegorias que misturam o imaginário do pampa com a história do país. Lê-as para o Maneco antes de dormir, e ele reclama que na história não acontece quase nada e que preferia dromedários. São esses cadernos que dão nome a este site.

Num dos cadernos ela cria um personagem: um filho rancoroso e gago, mandado estudar em São Paulo, que volta assim que termina a faculdade de direito, decidido a tratar a província como propriedade sua, porque as ovelhas e as mulas o seguiriam.

Em volta

Gabriel — jovem romântico de Piratini. Apaixonado por Almerinda, e ela por ele. É por causa dele que ela não queria o casamento com Octaviano. O que lhe acontece depois atravessa os três volumes.

Abela — menina de cinco anos, amiga imaginária de Iracema, a filha de Almerinda e Octaviano. E é a República: nasceu com ela, em 1889, e tem cinco anos em 1894.

Padre Cunegundes — percorria o Rio Grande do Sul montado numa avestruz, pregando de estância em estância o seu Evangelho de Penas. É com ele que aparecem pela primeira vez as aves de Stynphalia: tinham bicos, garras e asas de ferro, e disparavam as próprias penas metálicas como flechas. Monstruosas e carnívoras, devastavam plantações e aterrorizavam as populações — expulsá-las foi o sexto trabalho de Hércules. Atravessam toda a obra e chegam, muitos anos depois, a Um Affair de Antiquários.

Nicomedes — figura real. Uruguaio, traiu todos os que o ajudaram no Uruguai e na Argentina, passou ao Brasil e recebeu posto de general nas milícias de Castilhos.

Inácia — viúva, tia materna de Pedro Manuel, oitenta e três anos. Vai a Porto Alegre com o cunhado, Nicanor, e a sobrinha Leda, exigir de Castilhos uma escolta para a família até a fronteira.

Leda — a prima, amiga de infância de Honorina. É por ela que o pedido chega a Castilhos.

Norbelta — ex-escrava. Conhecia as plantas e os seus poderes curativos.

Toco — neto de Norbelta. Torna-se grande companheiro de Octaviano.

Orides — capataz de Arroyo Blanco, fiel a Antônio Elias.

Os históricos

Júlio de Castilhos — o Doutor. Formou-se em direito em São Paulo e voltou ao Rio Grande em 1881. No ano seguinte fundou o Partido Republicano Rio-Grandense, o PRR, e logo depois o jornal A Federação, de que foi diretor de redação. Partidos republicanos nunca foram proibidos no Império: havia vários, e poucos elegiam alguém. O que decidiu a escolha de Floriano por Castilhos foi outra coisa — o apoio à causa dos militares, que ele, pelo seu jornal, transformou numa arma contra a Monarquia. Governa o estado a partir de 1891 e, aliado a Floriano Peixoto, impõe-lhe um regime que ignora a fronteira entre o político e o pessoal.

Honorina — mulher de Castilhos. Escreve cartas sobre sociedades secretas e sobre Júlio Verne, que o marido despreza como fábulas sem valor cívico, mandando-a ficar em Comte.

Floriano Peixoto — ajudante-general do exército no último dia do Império, ministro da Guerra três dias depois. Aliado de Castilhos, sem impasse nenhum entre os dois.

Benjamin Constant (1833-1891) — articulador da República. Militar, professor de física e matemática, foi quem ensinou a doutrina de Comte aos oficiais da Escola Militar, e dele veio a inspiração do Ordem e Progresso que ficou na bandeira. Primeiro ministro da Instrução Pública, promoveu grandes reformas educacionais que nunca foram bem cumpridas. Na noite do baile da Ilha Fiscal fez cento e dezesseis oficiais assinarem com o próprio sangue e foi depois com a família até a ilha, onde não o deixaram entrar por falta de convite. Morreu em 1891, dois anos depois de feita a República, e antes de ver no que ela dava.

Deodoro da Fonseca — amigo pessoal do Imperador, e quem o depõe.

Joca Tavares — lutou na revolução de 1835 e comanda os maragatos em 1893, já velho e doente. Guerreiro, estrategista, generoso. Abriu mão dos seus títulos de nobreza.

Adão Latorre — oficial uruguaio emigrado, capataz dos Tavares. Terá grande papel nos combates.

Gumercindo Saraiva — entra com as forças vindas do Uruguai. Guerreiro notável pelas suas estratégias de combate.

Ângelo Dourado — médico baiano, humanitário, que acompanhou as tropas de Gumercindo. Deixou um diário de campanha, Voluntários do Martírio (1896). Era avô do escritor Autran Dourado.

Silveira Martins — líder incontestado do Partido Liberal. O Tribuno: qualidades oratórias extraordinárias e uma presença política nacional notável. Homem de salão e de grande vaidade, disputava mulheres com Deodoro, que perdia sempre — e é a ele que o Imperador chamará, equivocadamente, para salvar o Ministério, na véspera do fim. D. Pedro ignorava a velha rivalidade entre os dois, e a nomeação pode ter sido o que levou Deodoro a apoiar o golpe.