A gramática do turbilhão
Como os conceitos de Benjamin, Spinoza e Wittgenstein foram reificados, por que sempre do mesmo modo, e o que a gramática tem a ver com a forma de um turbilhão.
Um conceito é uma operação. Faz alguma coisa: separa o que estava junto, junta o que estava separado, impede um movimento que se fazia sem pensar. Quem aprende a operação recebe uma ferramenta. Quem aprende só o nome recebe uma ficha.
E fichas empilham-se. Combinam-se com outras fichas, produzem frases inteiras de aparência densa, circulam em congressos e em orelhas de livro, e não fazem nada. É o destino de quase todo vocabulário crítico.
O que aconteceu com Benjamin
Poucos pensadores foram tão espoliados.
Aura. No texto sobre a reprodutibilidade técnica, aura é uma definição precisa e estranha: a aparição única de uma distância, por mais próxima que esteja. É um conceito sobre a relação de culto com o objeto — sobre o aqui e agora irrepetível de uma coisa, e sobre o que a reprodução técnica faz com isso. Vira, no uso corrente, sinônimo de prestígio, atmosfera, charme. Diz-se que um filme tem aura, que um lugar tem aura, e a palavra passa a significar o que qualquer elogio significaria. Benjamin escreveu sobre o desaparecimento da aura; o mercado transformou-a em adjetivo de venda.
Flâneur. Em Benjamin, lendo Baudelaire, o flâneur é uma figura sombria: o homem que botaniza no asfalto, cujo olhar é o olhar da mercadoria que procura comprador, e que se dissolve na multidão que o fascina. É diagnóstico do capitalismo, não elogio de um estilo. Virou o passeante charmoso dos guias de viagem, o ócio bem-vestido, uma qualidade que se atribui a si mesmo.
O anjo da história. É uma figura dentro de um argumento sobre o progresso: a tempestade que sopra do paraíso, e que se chama progresso, empurra de costas para o futuro um anjo que gostaria de deter-se e juntar os cacos. Sem o argumento, resta um pôster.
Escovar a história a contrapelo. Era uma indicação de método e uma advertência sobre de quem é a herança cultural. Virou senha, e serve hoje para anunciar qualquer leitura que se queira dissidente.
E a imagem dialética, que é o conceito de que aqui mais se precisa, virou nome erudito para qualquer aproximação impressionante entre duas épocas — exatamente o que ela não é.
O mecanismo, que é sempre o mesmo
Repare no que essas quedas têm em comum, porque não é acaso e não é preguiça de leitura.
Em todos os casos, a reificação restaura uma cisão que o conceito tinha desfeito. Toma aquilo que organizava a aparência e transforma-o num objeto escondido atrás dela.
Aura era uma relação — um modo de aparecer, e portanto uma coisa que se dá na própria aparição. Reificada, vira qualidade invisível que o objeto teria dentro de si, e que se poderia ter mais ou menos. O que era o modo de aparecer passa a ser algo por trás do que aparece.
Imagem dialética era uma configuração legível num instante. Reificada, vira semelhança — e semelhança pede explicação, e explicação pede uma estrutura por baixo que a produza. Volta-se assim, pela porta dos fundos, à causa profunda que o conceito existia para dispensar.
É o mesmo movimento examinado noutro ensaio deste site, o das sombras dos princípios: uma proposição que perde o registro em que trabalhava e continua exigindo obediência no registro de baixo. Só que agora quem cai não é um princípio metafísico. É a ferramenta que servia para desmontá-lo.
Spinoza, o mesmo
Conatus é, na Ética, o esforço pelo qual cada coisa se esforça por perseverar no seu ser — e Spinoza acrescenta que esse esforço não é outra coisa senão a essência atual da própria coisa. Não é um apetite, não é um instinto, não é a vontade de alguém. É o modo como uma coisa é o que é, enquanto o é.
Reificado, vira força interior. Vira pulsão, motor, vontade de potência, instinto de sobrevivência. Ganha um sujeito que quer e um objeto querido, que é justamente o que Spinoza tinha eliminado. E aí serve para tudo: explicar mercados, guerras, casamentos.
Deus sive Natura era uma identidade rigorosa com consequências devastadoras: nada fora, nenhum plano, nenhuma finalidade, nenhum juízo. Vira espiritualidade de fim de semana — a natureza como sagrado, o divino em tudo, uma vaga reverência que Spinoza teria examinado com a frieza com que examinou os milagres.
E há a fórmula que se popularizou, ninguém sabe o que pode um corpo, transformada em cartaz de autoajuda. Era uma constatação sobre a nossa ignorância das capacidades corporais, dita para atacar a soberania da consciência sobre o corpo. Virou incentivo.
Wittgenstein, o mesmo
Jogos de linguagem é talvez o caso mais grave, porque a reificação inverte o sentido. Wittgenstein usa a expressão para lembrar que falar é uma atividade entre outras, feita de práticas variadas que não têm uma essência comum — e o faz para dissolver a busca por essa essência. O uso corrente extraiu daí que tudo é jogo de linguagem, quer dizer, que nada é sério, que tudo é convenção, que a verdade é interna a cada jogo. Isto é uma tese metafísica geral — precisamente o tipo de coisa que ele passou a vida tentando desfazer. Um método terapêutico virou relativismo doutrinário.
Formas de vida virou ficha culturalista, sinônimo de cultura ou de comunidade.
E o sobre o que não se pode falar, deve-se calar virou ora mística, ora ordem de calar a boca — quando o Tractatus o diz de um lugar muito preciso, e sobre o que se mostra sem poder ser dito.
Por que justamente estes três
Aqui está a pergunta que a coincidência levanta, e é preciso responder com cuidado, porque a resposta fácil está errada.
A resposta fácil seria: os três recusam o fundo, e ficam com a aparência. É falsa, e empobrece cada um deles até à metade. O que os três recusam não é o fundo — é a cisão entre fundo e aparência.
A diferença é decisiva. Há fundo, e ele faz trabalho. Só que não está atrás: é o que organiza a aparência, e organiza-a nela mesma.
Em Wittgenstein, esse fundo é a gramática. Ela não está escondida sob o que dizemos; mostra-se no modo como dizemos, e é ela que decide o que faz sentido. Não é uma camada por baixo da linguagem: é a linguagem no seu funcionamento.
Em Benjamin, é a Ideia. No prefácio do livro sobre o drama barroco ele escreve que as ideias estão para os fenômenos como as constelações para as estrelas: não os contêm, não os produzem, não estão atrás deles — agrupam-nos. A constelação não é uma coisa a mais no céu; é o arranjo em que aquelas estrelas se tornam legíveis. É o fundo como configuração, não como substrato.
Em Spinoza, é a essência atuosa. A essência não é um núcleo dormente sob os efeitos: é atividade, é o agir mesmo da coisa. A potência de Deus é a sua própria essência — não há a coisa e depois o que ela faz.
Nos três, portanto, o fundo é a forma de organização do que aparece — e não um segundo mundo por baixo do primeiro. Retirá-lo não é purificar o pensamento: é destruí-lo. Sem leito não há turbilhão; sem gramática não há sentido; sem ideia não há fenômeno salvo; sem essência atuosa não há coisa.
E Spinoza já tinha dado a esta distinção o seu nome próprio, que convém usar porque é exato. Uma causa transitiva está fora daquilo que causa: age sobre o efeito desde outro lugar, e permanece separada dele. Uma causa imanente permanece no efeito: age nele, e não sobre ele. Deus, escreve ele, é causa imanente de todas as coisas, e não transitiva.
E é preciso ser exato quanto ao que se recusa, porque não é a causa transitiva em si. Ela é mantida, e funciona, dentro dos sistemas internos das totalidades. Um telegrama chega e um coronel parte: causa transitiva, exterior ao efeito, perfeitamente legítima, e é dela que a pesquisa histórica se ocupa. O que se recusa é a causa transitiva enquanto totalidade — quer dizer, quando o termo que ocupa o lugar da causa é um todo. É a fórmula que Benjamin escreveu já em 1918: nenhuma totalidade pode ser causa nem efeito, e nenhuma causa e nenhum efeito podem ser totalidade. Um todo não está fora daquilo que o compõe, e portanto não pode agir sobre ele desde outro lugar.
Quem não faz essa distinção comete um de dois erros, simétricos. Ou põe uma totalidade no lugar da causa, e cai na causa profunda. Ou, para evitá-la, recusa o fundo inteiro — e aí elimina junto a imanência, que é o que se perde na formulação apressada. Sobram fenômenos soltos, sem nada que os organize, e chama-se a isso rigor. Não é rigor: é a metade que restou depois de se atirar fora a metade errada.
E daqui se tira uma última precisão, que é a que mais importa. Em cada um deles o fundo funciona como limite — limite do que pode ser, do que pode ser dito, do que pode ser compreendido.
Em Spinoza é o limite do que pode existir: Deus sive Natura, e nada fora.
Em Wittgenstein é o limite do que pode ser dito: a gramática marca a fronteira do sentido, e o que a atravessa não é falso, é sem sentido.
Em Benjamin é o limite do que pode ser compreendido, e esse limite é o tempo. É o que está na tese dezessete: o historiador não colhe o passado como ele foi; extrai uma configuração de dentro do curso homogêneo, e a compreensão só se dá nesse arranque. Fora do instante em que a constelação se forma, não há o que entender.
Ser, dizer, compreender — cada um no seu nicho, e nos três o mesmo gesto: o fundo é o limite, não o porão.
E é justamente por isso que os seus conceitos são os mais fáceis de arruinar. A reificação recorta o fundo e põe-no atrás. Faz da gramática uma convenção subjacente, da Ideia uma estrutura profunda, do conatus uma força oculta, da aura uma essência do objeto. Em cada caso o que era limite vira porão, e o que organizava vira o que produz.
A queda não é acidental. É a marca do próprio conceito, refletida no espelho.
O que Wittgenstein chama gramática
Falta a peça que junta tudo, e é a que dá título a este ensaio.
Gramática, para Wittgenstein, não é a das aulas de português. É o conjunto das regras que determinam o que faz sentido dizer — e que, por isso, não são verdadeiras nem falsas. Que ninguém pode ter a minha dor não é uma descoberta sobre dores: é uma regra sobre como usamos a palavra. Que o vermelho não é mais pesado que o azul não é um fato sobre cores. Escreveu que a essência se exprime na gramática: o que uma coisa é, para nós, mostra-se no modo como falamos dela.
A gramática não presta contas ao mundo. Não se corrige com observação. E, sobretudo, não tem fundamento — não está apoiada em nada mais profundo, do mesmo modo como a Origem não está apoiada numa causa.
Mas ela muda. E aqui Wittgenstein usa uma imagem que já está noutro ensaio deste site: proposições que antes eram empíricas endurecem e passam a funcionar como o leito por onde o pensamento corre; e o leito, com o tempo, também se desloca. Não há separação nítida entre a água e o leito: o que hoje é canal foi corrente, e o que hoje corre pode endurecer amanhã.
A tese
Benjamin descreve a Origem como um turbilhão no rio do vir-a-ser. Wittgenstein descreve a gramática como o leito de um rio, que canaliza o pensamento e que também se move. São duas imagens fluviais, feitas para problemas diferentes, por homens que não trabalhavam juntos.
Postas lado a lado, dizem uma coisa só: a forma de um turbilhão é a dinâmica que a gramática assume num determinado instante.
E repare que isto só se sustenta com o que ficou estabelecido antes. Um turbilhão não se forma na água sozinha nem no leito sozinho. Forma-se no encontro dos dois — onde o que corre esbarra no que está sedimentado. Quem retira o fundo, na pressa de recusar a profundidade, fica com água solta: e água solta não faz forma nenhuma. É por isso que a recusa da cisão não é uma sutileza acadêmica. Sem leito, o turbilhão nunca acontece.
Por isso ele tem forma reconhecível sem ter substância própria, e por isso se mantém enquanto a matéria o atravessa. Uma Origem histórica é isso: o desenho que aparece quando o que uma sociedade faz esbarra no que ela já não sabe que pensa.
Isso explica a persistência sem recorrer a nenhuma causa. Não é preciso que 1889 empurre 2026. Basta que o leito continue no lugar. Enquanto a gramática se mantiver — enquanto continuar fazendo sentido chamar de pacificação o abandono de um estado a quem o devastou, chamar de patriotas as milícias, e tratar a palavra dada como formalidade —, o turbilhão volta a formar-se nas mesmas coordenadas, com outra água.
E explica também o que se pode fazer. Contra uma causa profunda não há o que fazer senão esperar que ela mude. Contra um leito de rio há: pode-se mostrá-lo. É o que Wittgenstein queria, ao dizer que uma imagem nos mantinha prisioneiros porque estava na nossa linguagem; e é o que Benjamin queria, ao fazer da imagem dialética um instrumento e não um ornamento.
E é por isso que os nomes vêm depois
O que fica disto, como regra de trabalho, é simples.
Um conceito só resiste à reificação se for apresentado com a operação que faz. Mostra-se a coisa; depois dá-se o nome. Assim o nome fica preso ao trabalho, e quem o repetir sem o trabalho perceberá que está com uma ficha na mão.
Concebido de outro modo — o nome antes da coisa —, o conceito destaca-se do que faz, e a partir daí pode ser repetido, combinado e multiplicado sem que nada seja pensado. É como um vocabulário crítico se converte em senha. E é o destino de quase todos.