O dia que podia ter sido outro
O 15 de novembro como sistema caótico, os cem anos entre 1789 e 1889, e um exemplo para a autossemelhança não ficar no ar.
O texto anterior mostrou por que explicar a queda da Monarquia por uma causa profunda é erro de categoria, e o que Benjamin põe no lugar da causa: a Origem, que se lê como se lê um turbilhão.
O 15 de novembro
Naquela semana correu pelos quartéis o boato de que o generalíssimo Deodoro tinha sido preso. Não era verdade: ele estava em casa, doente, e era amigo pessoal do Imperador. Benjamin Constant o visitou na véspera e saiu dizendo que ele não amanheceria. Amanheceu. Um capitão foi enviado para denunciar a conspiração ao ajudante-general do Exército — que era Floriano Peixoto, e que não fez nada.
Qualquer um desses fios puxado noutra direção, e o dia teria sido outro. É o que um sistema desse tipo faz: uma diferença mínima no começo muda a trajetória inteira.
E aqui está a coisa que costuma parecer contraditória e não é. A trajetória é imprevisível **e** a forma é reconhecível. Nos sistemas caóticos as duas propriedades andam juntas: não se pode dizer por onde a coisa vai passar, e ainda assim o feitio é identificável. Uma explicação por correntes profundas não tem o que morder num dia como esse. Não por falta de dados, mas por erro de categoria.
Cem anos
Euclides da Cunha chamou Canudos de a nossa Vendeia. Se a França fez a sua revolução em 1789 e o Brasil em 1889, a Vendeia de 1793 tem correspondência em 1893.
O historiador diante disso costuma ter duas opções, ambas ruins. Ou afirma que os acontecimentos estão ligados por causa — e não estão, 1793 não causou 1893 —, ou trata a comparação como retórica, enfeite de escritor.
Há um terceiro caminho, e é o dos fractais: a mesma forma em outra escala, sem descendência causal. Num fractal, um nível não é efeito do nível acima; é a mesma estrutura noutra magnitude. Não é repetição, não é coincidência, não é herança. É autossemelhança.
Não há simetria exata entre os dois lados. Não são números inteiros superpostos, mas frações que aparecem e desaparecem conforme a perspectiva e o horizonte de quem olha. Quem for procurar correspondência item por item não vai achar, e não é disso que se trata.
Mas os traços aparecem, e alguns são desconcertantes. Republicanos brasileiros celebravam o 14 de julho ao som da Marselhesa. Na França, Luís XVI era detestado por ter casado com Maria Antonieta, uma austríaca; no Brasil, um dos obstáculos levantados contra o terceiro reinado era o Conde d'Eu, francês, casado com a princesa Isabel — dizia-se que ela acabaria obedecendo ao marido e que o Brasil teria um imperador francês. Enquanto na França se endeusava a razão, aqui o racionalismo positivista de Comte tomava conta da Escola de Cadetes.
Foi isso que Euclides viu, e ele deu o nome antes de existir a matemática para descrevê-lo. A imagem dialética, aqui, é um fractal de um acontecimento de cem anos atrás.
Um exemplo, para não ficar no ar
Entre 1893 e 1895, o Rio Grande do Sul teve uma guerra civil entre estancieiros, caudilhos e tropas regulares, numa fronteira de pecuária, com gente que emigrava para o Uruguai e voltava armada. Entre 1896 e 1897, no sertão da Bahia, o Exército destruiu um arraial de sertanejos pobres reunidos em torno de um beato.
São duas sociedades sem quase nada em comum. Economia diferente, geografia diferente, gente diferente, motivos diferentes.
E receberam a mesma definição e a mesma resposta. Uns e outros foram declarados selvagens, fora da lei, restauradores monarquistas ameaçando o progresso. Uns e outros foram tratados com o Exército, e não com política. Nos dois casos houve degola. E nos dois a acusação era falsa: Euclides foi enviado como republicano convicto e voltou tendo concluído que nunca houvera conspiração monarquista nenhuma.
Se as condições eram tão diferentes e a resposta foi a mesma, então não foram as condições que produziram a resposta. Foi a forma. E a forma vinha de outro lugar — de um século antes e de outro continente.
Cada Origem sela com assinatura própria o seu devir. A Vendeia francesa não voltou: a mesma forma apareceu noutra escala, com outros mortos e outro nome.
E é por isso que não se investiga a causa da República brasileira. Investiga-se a sua Origem — que é outra coisa, e que se lê como se lê um turbilhão: pela forma, não pelo que está atrás. Uma imagem da qual somos prisioneiros, como diz Wittgenstein, e que nos leva à mitologia; ou uma imagem tornada dialética, que nos leva à compreensão.
Fica uma frase para levar: em 1889 foi-nos impossível herdar 1789 sem o terror.