C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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Os mesmos homens

A continuidade entre o Sul e o sertão: o oficial que permitiu o saque de Bagé em 1892 e comandou Canudos em 1897, e o presidente que foi Pacificador num e despachou o outro.

Há uma continuidade entre o Sul e o sertão que nenhuma das duas historiografias costuma traçar, e ela tem dois nomes próprios: um militar e um civil.

O militar. Bagé, junho de 1892. O general Joca Tavares, destituído, aceita depor as armas mediante uma condição única: que as tropas civis dos coronéis Pedrosa e Totta não entrem na cidade. A garantia é dada pelo coronel Arthur Oscar de Andrade Guimarães, à frente das forças federais. Tavares desarma os seus homens. Chega então o telegrama de Júlio de Castilhos: desautorizo as garantias concedidas ao General Joca Tavares e determino-lhe que não se oponha à marcha das forças civis — assim recomenda o Marechal Floriano. Arthur Oscar parte, entregando o comando da guarnição ao tenente-coronel Rabello de Vasconcellos com a informação de que a entrada das milícias fora permitida. O subordinado fica impossibilitado de agir, e fecha as janelas do gabinete para não ver o que corre solta pela cidade.

A data importa mais do que parece. Se o saque é de 1892, então a Revolução Federalista, que eclode em 1893, não é o começo da violência: é a resposta a ela. É por isso que dela sai o manifesto de Joca Tavares. Quem inverte a ordem — a revolta primeiro, a repressão depois — está contando a história pelo lado de quem a executou.

Cinco anos depois, o mesmo oficial, agora general, comanda em Canudos. E ali repete, ponto por ponto, o que fizera no Sul: dá a palavra de que a rendição não custaria a vida, e fuzila os sobreviventes — velhos, mulheres e crianças. A cena da decisão está registrada. Pergunta ao Ministro da Guerra o que fazer com os rendidos. A resposta é: não temos lugar para eles. A bom entendedor, meia palavra basta — e o entendedor fuzila, para pôr aquela gente no lugar que lhe é destinado.

Nos dois episódios a estrutura é idêntica. Alguém depõe as armas por causa de uma palavra dada; a palavra não obriga a nada; e o desarmamento obtido por ela é o que torna possível o que vem depois. Em Bagé o desarmado foi um general com os seus homens; em Canudos, sertanejos famintos saídos de um arraial em ruínas. O procedimento não mudou de 1892 a 1897.

O civil. O Pacificador de 1895 e o homem de Canudos em 1897 são o mesmo Prudente de Moraes. Não houve pacificação alguma no Sul: ele apenas retirou de lá o Exército nacional, porque a guerra não fazia bem aos negócios e São Paulo estava ávido por recursos, deixando o estado nas mãos da ditadura castilhista que o combatia. Sobraram soldados sem destino. Os soldados foram para a Bahia.

Esperava-se coisa rápida. Não foi: os jagunços tinham fé, conheciam o terreno e defenderam-se bem, e expedição após expedição ninguém conseguia acabar com eles. Prudente estava sob ameaça de golpe — os militares não toleravam um presidente civil, e um presidente civil incapaz de vencer sertanejos pobres estava duplamente perdido. Quando a derrota passou a ameaçar o seu governo, pediu ao Ministro da Guerra que terminasse logo com aquilo. Terminaram.

Convém dizer o que isso significa sem atenuação: um presidente preferiu exterminar uma comunidade a ser visto como fraco e perder o cargo. E é assim que se fazem quase todos os massacres de Estado: alguém precisa de um resultado, e não pergunta pelo método.

Assim as duas continuidades ficam visíveis lado a lado — a de quem executa e a de quem manda. A segunda é a que costuma escapar, porque Pacificador é palavra que absolve sozinha.

Nem só esses dois. Carlos Telles, Thompson Flores, Tupi Caldas, Sampaio, Savaget — nomes que combateram os federalistas reaparecem no sertão. Não é coincidência de carreira: é a mesma força, deslocada de um teatro para outro, com o mesmo repertório e os mesmos métodos. A palavra pacificação, no Sul, significou exatamente isto: o Exército mudou de endereço.