C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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Por que Goethe

A mania oitocentista da causa única, o erro de tomar uma totalidade por causa, e por que a Origem se lê como se lê um turbilhão.

Quem abre *Noventa e três & Walter Benjamin* encontra, nas primeiras páginas, sistemas complexos e a teoria das cores de Goethe. Num livro sobre a Primeira República brasileira, parece fora de lugar. Não é.

A chave única

Pergunte a alguém por que a Monarquia caiu. A resposta costuma vir assim: por causas profundas. A economia mudava, a sociedade mudava, o regime já não servia. Chama-se a isso explicar pela base — e ao resto, às ideias, às leis, aos livros, chama-se superestrutura.

Isso não era mania de um autor. Era o século XIX inteiro. Cada um procurava a sua chave e abria com ela todas as portas. Comte encontrou três estados pelos quais a humanidade passaria em ordem. Marx encontrou a economia. Freud encontrou a sexualidade. Taine encontrou a raça, o meio e o momento.

Vale reparar em quem estava na sala. A doutrina de Comte era o que Benjamin Constant ensinava aos oficiais da Escola Militar, e o que Júlio de Castilhos aplicaria ao Rio Grande do Sul. Ordem e Progresso, na bandeira, é uma teoria da história de causa única, escrita em pano.

O Resto

Definida a causa única, o resto alicerçava-se através de mediações. Cada sistema com o seu nexo próprio. Instituições, contratos jurídicos, imprensa, escola, igreja, indústria cultural, aparelho ideológico, uma infinidade de proposições. Mas base e superestrutura não são duas coisas, uma causando a outra, conforme a orientação de quem descreve. Cada uma é um sistema complexo em si, do mesmo modo que as mediações. Dizer que uma causa a outra é dizer que uma coisa causa a própria descrição de si através da descrição da outra, entremeada de fios que as conectam.

E há um problema maior. Uma causa precisa ser alguma coisa separada daquilo que ela causa. Se o todo já contém o fenômeno, dizer que o todo o explica não explica nada: é dar um nome à soma e chamar isso de razão.

Ninguém está dizendo que não existem causas. Dentro de uma totalidade há cadeias de causa e efeito, e elas funcionam: um telegrama chega, uma tropa marcha, um homem morre. Isso se explica assim mesmo, e é o que os documentos mostram.

O que não funciona é pegar o todo — a economia, a sociedade, o espírito da época — e pô-lo no lugar da causa. Causas há, e muitas. O que não há é a Causa. Isso não significa gratuidade nem indeterminismo.

Essa compreensão praticamente custou a vida de Benjamin. Adorno criticava seu ensaio sobre Baudelaire exatamente nesses termos: base, superestrutura, mediações. E desde 1918 que Benjamin já escrevia: nenhuma totalidade pode ser causa nem efeito e nenhum efeito e nenhuma causa podem ser totalidade.

Em seco: o que está em jogo

A República brasileira foi um golpe de estado político e ideológico, com algumas consequências sociais. Questões econômicas e sociais estavam presentes, evidentemente, mas não tiveram o primado que certa historiografia lhes atribui. Elas se arrastaram durante todo o processo de republicanização, e o governo nunca tomou a decisão de resolvê-las: estava inebriado com a constituição do regime novo.

O que ergue as categorias da Grande Revolução à condição de causas maiores, e faz parecer que elas teriam necessariamente de se repetir no Brasil, não são os fatos. É a ideologização dessas categorias.

O caso brasileiro se aproxima muito mais da fenomenologia do caos: não linearidade, dependência sensitiva, efeitos radicais produzidos por alterações mínimas e acidentais nas condições iniciais, um determinismo complexo. No feixe de causas do 15 de novembro de 1889, o que tem primazia é a excitação ideológica e o oportunismo de um grupo pequeno.

A imagem que prende: por que persiste?

Porque não é uma crença que se possa refutar com fatos. É uma imagem. Wittgenstein escreveu que uma imagem nos mantinha presos, e que não conseguíamos sair dela porque ela estava dentro da nossa linguagem, e a linguagem parecia repeti-la sem descanso.

A imagem, aqui, é a de um edifício. Embaixo, a base; em cima, o que se apoia nela. Uma vez que se fala assim, o resto vem sozinho: o que está embaixo sustenta, o que está em cima é sustentado, e portanto explicado. Ninguém precisa acreditar nisso. Basta falar assim.

Wittgenstein chamava isso de mitologia, e não no sentido de fábula. São proposições que endureceram e passaram a funcionar como o leito por onde o pensamento corre. Não se discute com um leito de rio; anda-se dentro dele sem reparar.

Por isso não adianta argumentar contra a imagem. O que se pode fazer é mostrá-la como imagem, e foi isso que Benjamin ensinou.

Goethe

Aqui entra a teoria das cores, e ela deixa de ser esquisita.

Newton passa a luz por um prisma e conclui que a luz branca é feita de componentes. Explica o que se vê por aquilo que está atrás. Goethe recusa o movimento. Para ele o fenômeno é o que aparece, e não há nada por trás dele a ser encontrado: o que se vê já é a coisa. Ele chamou isso de fenômeno originário, e escreveu que o mais alto seria compreender que todo factual já é teoria.

Não é misticismo nem antipatia por matemática. É uma decisão sobre onde a explicação para: ela para no fenômeno, e não numa causa escondida.

Benjamin pega esse conceito e faz com ele uma coisa que Goethe não tinha feito. Em Goethe o fenômeno originário fica preso à natureza; Benjamin o transforma em conceito de história, e passa a chamá-lo de Origem. A Origem não é o começo cronológico de nada. Não é a causa. É a forma que se reconhece num acontecimento.

O turbilhão

Para dizer o que é a Origem, Benjamin escolheu uma imagem: um turbilhão no rio do vir-a-ser, que arrasta para o seu ritmo o material que passa.

A imagem foi bem escolhida, e não é ornamento. Um turbilhão tem propriedades exatas. Ele mantém a forma enquanto a matéria atravessa: a água que o compõe num instante já não é a mesma no instante seguinte, e ele continua o mesmo turbilhão. Não é causado pela água nem está escondido atrás dela. É uma forma que o escoamento assume. Não tem substância própria e, mesmo assim, é real, é identificável, e produz efeitos.

Repare no verbo. A origem não *produz* o material: arrasta-o para o seu ritmo. Não causa os fatos, organiza-os.

Benjamin escreveu isso nos anos 1920. A turbulência era então o escândalo não resolvido da física; Poincaré tinha aberto o problema poucas décadas antes, e faltavam quarenta anos para que a matemática do caos existisse. Benjamin foi buscar a única imagem que já continha o argumento antes de haver ciência dela: uma estrutura estável dentro de um fluxo, sem causa e sem essência.

É por isso que *Noventa e três & Walter Benjamin* é um livro que começa por sistemas complexos. Não se está anexando ciência à filosofia. Está-se dizendo, com o vocabulário que só apareceu depois, o que a imagem já dizia.

A aplicação disso ao caso brasileiro — o 15 de novembro, os cem anos entre 1789 e 1889 — está no texto seguinte, *O dia que podia ter sido outro*.