C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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Quem copiava

Aquarela do Brasil era cívica demais e Carinhoso era imitação de americano, enquanto a política encenava 1789 linha por linha.

Durante décadas, os que falavam em nome da identidade nacional acusaram a cultura brasileira de copiar. Sempre que alguém era brasileiro do jeito que os brasileiros são, vinha a censura: aquilo era importado, era macaqueação, era falta de raiz.

*Aquarela do Brasil* foi desqualificada num concurso por ser cívica demais. O arranjo de metais que Radamés Gnattali escreveu para a abertura dela foi chamado de coisa de lacaio dos imperialistas. *Carinhoso*, de Pixinguinha, foi considerado espúrio: imitação de americano.

E, enquanto isso, a política se declarava sincera. Só ela seria genuína, dedicada à nação, nacionalíssima, dona da verdade nacional. A cultura copiava; a política, não.

Vale agora olhar para o que a política estava fazendo.

O que a política estava fazendo

Estava seguindo um roteiro francês, linha por linha.

Se a França fizera a sua revolução em 1789, o Brasil faria a sua em 1889. Se lá houve a Vendeia em 1793, aqui haveria a nossa em 1893. Os oficiais assinaram um pacto com o próprio sangue no Clube Militar, e no Rio Grande do Sul um grupo tinha jurado o seu num capão, sete meses antes. Silva Jardim pedia o fuzilamento do Conde d'Eu. Numa fazenda no Uruguai, uma família comentava ao café que pelo menos não haviam fuzilado D. Pedro como fizeram com Maximiliano no México.

Nada disso é figura de linguagem. Era o modelo declarado, discutido nos jornais e nas academias, e executado com a seriedade de quem cumpre um programa. A guilhotina virou degola, e as degolas do Sul emulavam o sangue dela.

E não é leitura de adversário. Sérgio da Costa Franco, biógrafo e admirador de Júlio de Castilhos, encontra apenas dois heróis comparáveis a ele. Um é Floriano Peixoto. O outro é Robespierre. Escreve que Castilhos o lembra pela incorruptibilidade, pela firmeza, pela audácia, pelo poder de vontade e pelo próprio sectarismo — e acrescenta, em tom de celebração, que foi um Robespierre que não teve o seu 9 Thermidor e que morreu em triunfo.

Vale reler com atenção. O que se está elogiando é não ter sido derrubado. O modelo é francês, a medida é francesa, e quem a usa é o admirador.

De modo que a acusação estava exatamente invertida. Quem copiava era a política. O acusado foi o Pixinguinha.

De onde vem essa inversão

Ela não é hipocrisia individual, e não se resolve mostrando a incoerência a quem a comete.

Quem tem a chave única não se vê a si mesmo como uma posição entre outras: vê-se como o lugar de onde as outras se avaliam. Quem porta o sentido da história não copia, porque acha que é ele o original — e o que não se parece com ele é desvio, atraso ou macaqueação.

É a mesma estrutura da tutela sem representação. Júlio de Castilhos apresentava-se com a imaculada pureza de intenções, e daí tirava o direito de tutelar o povo sem nenhuma obrigação de representá-lo. O puro não precisa de mandato, e o original não precisa de comparação.

As elites do país são atormentadas por ilusões que só os governos podem lhes prodigar.

O santo que intriga

Há uma descrição desse tipo de homem, e ela não é moderna. Vem do teatro barroco do século XVII, que Walter Benjamin estudou.

Segundo a tese daquele tempo, o espírito se comprova no poder: espírito é a faculdade de exercer a ditadura. E essa faculdade exige duas coisas ao mesmo tempo — disciplina interna rigorosa e atividade externa sem escrúpulo. A prática dela produz uma desilusão radical com o curso do mundo, cuja frieza absoluta só se compara, em intensidade, ao calor ardente que emana da vontade de poder de quem a exerce.

Frio por fora, ardendo por dentro. Puro consigo, implacável com o resto.

O palco barroco tinha três figuras que ali se confundem: o tirano, o mártir e o intrigante. Floriano Peixoto e Júlio de Castilhos são dois expoentes máximos disso dentro da modernidade republicana brasileira — santos que intrigam, e que retiram da própria pureza a licença para tudo o que fazem.

O drama do tirano

Algo do Barroco ressurge no drama do tirano, como Benjamin o descreve: a função do tirano é a restauração da ordem durante o estado de exceção — uma ditadura cuja vocação utópica será sempre a de substituir as incertezas da história pelas leis de ferro da natureza. Esse drama é inseparável da tragédia do martírio, que fica reservada à nação.

O par de semelhantes emerge da condição de cortesão, o santo intrigante, para a de príncipe déspota.

E os padrões fractalizados da aliança florianista-castilhista permanecem ativos ao longo da história da República brasileira até hoje. O historiador Décio Freitas defende a tese de que Júlio de Castilhos estabeleceu a primeira ditadura constitucional da América Latina, e que ela serviu de molde aos regimes de 1937 e de 1964. As ditaduras mudam de cara e de corpo — ora jurídicas, ora forças externas —, mas nunca deixam de devorar a nação brasileira: vieram no bojo da República.

As leis da história, desprovidas de transcendência e atoladas nos interesses privados, atualizam-se na República como história natural, reciclam padrões petrificados e o vicioso ciclo de decomposição e recomposição de um regime mal-nascido, em retornos do sempre mesmo. Deodoro, Floriano e Castilhos realizam-se enquanto soberanos barrocos, numa leitura muito mais próxima de Carl Schmitt do que de Benjamin.

E tudo ficou tão emaranhado que mesmo quem busca causas e efeitos já não poderia dizer se é a República que está por trás do mito, ou se é o mito que está por trás da República.