C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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A chave jogada fora

Folhetim número 6. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

Excertos publicados em folhetim.

Onde estamos

A guerra no Sul já começou. E agora a Marinha se levanta no Rio de Janeiro.

O almirante Custódio de Mello foi ministro de Floriano e pediu demissão em abril. Em setembro toma o Aquidabã — o mesmo encouraçado que, quatro anos antes, iluminava com seus refletores o baile da Ilha Fiscal. É a segunda Revolta da Armada.

Floriano está no Itamaraty.

Rio de Janeiro, 6 de setembro de 1893.

O almirante Custódio de Mello toma o Aquidabã. É a segunda Revolta da Armada. Sem apoio de base, ele embarca marinheiros que consomem alimentos e combustível. Os cruzadores e couraçados República, Javari, Trajano e Guanabara juntam-se a ele.

O marechal Floriano Peixoto está no seu gabinete no Itamaraty.

— Vamos encomendar uma nova esquadra e nomear um almirante neutro para comandá-la.

— Sim, senhor.

A um segundo ajudante, ordena:

— Acompanhe a instalação de baterias nos morros da cidade.

A um terceiro:

— Guarneça e proteja o litoral.

A outro:

— Chame o contra-almirante Coelho Neto e o ministro das Relações Estrangeiras. Preciso de ambos aqui, o mais rápido possível.

Os ajudantes vão cumprir suas tarefas. Chegam o contra-almirante Coelho Neto e o ministro das Relações Exteriores.

— Contra-almirante, vá a todos os navios estrangeiros ancorados na Baía de Guanabara e peça a cada um deles apoio contra os revoltosos. Publicamente, diga que foi aos navios informar pessoalmente sobre a revolta da Armada.

— Sim, marechal, tomarei todo o cuidado para que a intervenção estrangeira não se torne pública. Precisamos proteger a cidade.

— Senhor ministro, convoque todos os comandantes dos navios estrangeiros e agentes que tenham forças navais para uma reunião política de urgência aqui no Palácio Itamaraty.

— Prontamente, sr. marechal.

Na Baía de Guanabara, um marinheiro fecha a sala de bombas da doca que enche os diques onde está o Aquidabã e joga fora a chave.

— Encham os diques para mover o Aquidabã.

— Impossível, almirante Mello. A chave da sala de bombas da doca sumiu!

— E por que estamos sem propulsão própria?

— Foi roubada uma peça essencial da bomba centrífuga do condensador e não há sobressalente.

— Façam outra!

— Vai tomar tempo.

Continua no próximo número: os comandantes dos navios estrangeiros reúnem-se a bordo do francês Aréthuse, e um deles diz, em inglês, o que o governo de Sua Majestade decidiu a respeito do bombardeio da capital.

Caderno de notas

Repare em como esta revolta é derrotada. Não por combate: por uma chave.

Um marinheiro tranca a sala de bombas que encheria os diques, e joga a chave fora. Roubam a peça da bomba centrífuga do condensador, e não há sobressalente. O maior encouraçado da esquadra brasileira fica onde está — cercado de água e sem poder se mover. Do outro lado, Floriano não dá uma ordem de fogo: encomenda uma esquadra nova, manda instalar baterias nos morros, guarnece o litoral e convoca os estrangeiros. Ganha por administração.

E repare no que ele pede ao contra-almirante Coelho Neto, com todas as letras. Que vá aos navios estrangeiros pedir apoio — e que, publicamente, diga ter ido apenas informar. A resposta do subordinado é ainda mais clara: tomarei todo o cuidado para que a intervenção estrangeira não se torne pública. O governo que se dizia a encarnação da soberania nacional pede ajuda a esquadras estrangeiras e combina esconder o pedido.

O fio vem de longe, e vale reconstituí-lo, porque ele explica por que a guerra do Sul virou nacional.

Dezembro de 1889, porto de Colombo, no Sri Lanka. O navio Almirante Barroso, comandado por Custódio de Mello, recebe a notícia da queda da Monarquia com semanas de atraso. A bordo está D. Augusto, neto do Imperador, oficial da marinha imperial. Arria-se a bandeira do Império, iça-se a da República. Pedem que ele renuncie ao posto. Ele pede licença para telegrafar ao avô — e o avô, do exílio, aconselha que peça seis meses de licença sem renunciar. Um velho destronado ainda calculando prazos, do outro lado do mundo, por telegrama.

Julho de 1890. Custódio volta ao Rio depois de dar a volta ao mundo e diz o que ouviu pelo caminho: a primeira providência do novo regime foi aumentar os próprios salários e promover a si mesmos a postos que antes não existiam. Para um regime que veio coibir os privilégios, este não parece ser o melhor caminho.

Novembro de 1891. Deodoro cerca o Congresso e declara estado de sítio. A Armada, sob Custódio de Mello e Wandenkolk, ameaça bombardear o Rio — já fizera fogo contra a Candelária. Floriano recusa-se a ordenar o apoio do Exército, e Deodoro renuncia, doente, de farda aberta e cataplasmas no peito. Foi a Marinha que derrubou o primeiro presidente da República, e foi Floriano quem herdou o lugar por não fazer nada.

Abril de 1893. Custódio escreve a carta de renúncia ao ministério de Floriano: quanto menos eu sou ministro deste governo, mais me sinto um cidadão da República. E diz dos federalistas do Sul o que Castilhos e Floriano jamais admitiriam — que combatem pela garantia de direitos e liberdades que lhes foram confiscados.

Setembro de 1893. A revolta e a chave no fundo da baía.

Quatro anos, portanto. E no meio deles, uma simetria que o livro não sublinha e que salta aos olhos de quem leu o número um: o Aquidabã, que Custódio toma em 1893, é um dos três encouraçados ancorados na baía na noite do baile da Ilha Fiscal, em 1889, iluminando a festa com os seus refletores num espetáculo nunca visto. O mesmo navio ilumina o último baile do Império e, quatro anos depois, aponta os canhões para a capital da República.