C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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Fuzila-se

Folhetim número 7. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

Excertos publicados em folhetim.

Onde estamos

Noite de 9 de novembro de 1889. No Clube Militar, Benjamin Constant acabou de discursar e cento e dezesseis oficiais assinaram com o próprio sangue um documento que os compromete a morrer pela República.

Do outro lado da cidade, na Ilha Fiscal, a corte dança.

O que ninguém discutiu ainda é o que acontece depois.

Assinado o documento, os oficiais não se dispersam. Fica aquele intervalo em que uma coisa já foi feita e ninguém sabe o que fazer a seguir. Alguém enrola o lenço no dedo. Cheira a sangue e a sebo de vela.

É Benjamin Constant quem fala, e fala devagar, como quem resolve um problema no quadro-negro.

— Há uma coisa que não discutimos.

Esperam.

— E se a família real não quiser partir? Se não aceitarem o exílio?

Ninguém responde de imediato. É uma pergunta simples, e é a primeira da noite que não tem resposta pronta no discurso de nenhum deles. Toda a doutrina que ali se recitou — a igualdade dos cidadãos, o viver pelos outros, o soldado que antes de soldado é cidadão — não diz o que fazer com um velho de sessenta e quatro anos que se recuse a entrar no navio.

Quem responde é o alferes Joaquim Inácio Baptista Cardoso. Não levanta a voz, não argumenta, não precede a frase de nada.

— Fuzila-se.

— Não — diz Benjamin Constant.

E é tudo o que diz. Não invoca Comte, não fala em humanidade, não faz o discurso que fizera meia hora antes. A recusa vem sem doutrina nenhuma, e é a única coisa naquela sala que não precisa de argumento.

Continua: três dias depois, a carta será entregue à família real. Vai com Sólon Ribeiro, e Joaquim Inácio vai junto. E o Imperador sairá do Paço às três da manhã, dizendo que não quer sair como um negro fugido.

Caderno de notas

A única frase honesta do regime.

Repare no que essa palavra faz, porque ela é única em todo este folhetim.

Tudo o que virá depois é linguagem que ocupa o lugar do ato. Pacificação será o nome dado a deixar um estado nas mãos de quem o devastou. Patriotas será como se autointitulam as tropas civis que caem sobre gente desarmada. Consolidação será o nome do esmagamento. E a palavra de honra será o instrumento com que se desarma um general em Bagé antes de entregar a cidade ao saque.

Fuzila-se não é nada disso. Não substitui ato nenhum: descreve-o exatamente. É a única vez, na origem inteira, em que alguém diz em voz alta e sem ornamento o que seria feito.

E é recusada.

Aqui está o ponto, e ele importa mais do que a anedota. A frase é dita uma vez, na primeira noite, e nunca mais precisa ser dita — porque o que o regime aprende, dali em diante, é fazer sem dizer. Em Bagé, em 1892, ninguém ordena o saque: garante-se que as milícias não entrarão, e depois desautoriza-se a garantia. Em Canudos, em 1897, ninguém manda fuzilar os rendidos: pergunta-se ao Ministro da Guerra o que fazer com eles, e responde-se que não há lugar. A bom entendedor, meia palavra basta.

A gramática que este site descreve começa a formar-se exatamente no instante em que essa palavra é rejeitada. O que foi recusado não foi a coisa — foi dizê-la.

A pergunta.

Convém notar de quem é a pergunta. É do doutrinário, não dos militares. Benjamin Constant é o homem do positivismo, das fórmulas de Comte, do viver pelos outros — e é o único naquela sala que pensa o problema até ao fim. Cento e dezesseis homens acabam de jurar morrer por uma ideia cujo desfecho ninguém tinha considerado.

Não é elogio a ele nem acusação aos outros. É a descrição de um estado de coisas: a República foi feita por gente que não tinha respondido à própria pergunta.

E de quem é a resposta.

Joaquim Inácio Baptista Cardoso era alferes. O posto mais baixo que havia. Numa sala com cento e dezesseis oficiais, entre coronéis e majores, quem responde é o mais moço.

Convém não fazer disso mais do que é. Não sabemos se outros responderam antes dele, nem se aquela foi a única resposta dada: sabemos que foi a que ficou registrada — talvez justamente por ser a única daquele teor, talvez por ser a que alguém achou digna de nota. O que se pode dizer com segurança é apenas isto: a pergunta partiu do doutrinário, e a resposta que atravessou o século partiu do posto mais baixo da sala.

E o desnível dá a medida do que vem depois. O tenente-coronel de cinquenta e três anos, que recusa, morre em 1891, dois anos depois de feita a República. O alferes atravessa a década inteira ao lado do poder, chega a marechal de brigada, e ainda estará preso em 1922 pela ligação ao tenentismo — trinta e três anos depois daquela noite, do outro lado da mesma inquietação militar.

O que a recusa produziu.

Não fuzilaram. Retiraram às escondidas, de madrugada, escoltados, para que a cidade não acordasse.

As duas cenas são a mesma cena, separadas por três dias. O que o Imperador chamará de sair como um negro fugido — e que é o assunto do folhetim nº 3 — é o que sobrou depois de recusada a alternativa. A humilhação que ele mede pela condição do escravo que foge é, vista daqui, a forma branda do que se propôs naquela sala.

E o homem.

Joaquim Inácio Baptista Cardoso não desaparece da história. Vai com Sólon Ribeiro entregar a carta à família real. E depois torna-se ajudante de ordens de Floriano Peixoto, acompanhando a Revolução Federalista inteira.

Quer dizer: o alferes que na primeira noite propôs fuzilar a família imperial está, quatro anos mais tarde, ao lado do homem que governa contra a Constituição, na guerra do Sul.

É o mesmo desenho do ensaio Os mesmos homens — o coronel de Bagé que reaparece general em Canudos, o Pacificador de 95 que despacha Canudos em 97. Só que aqui a figura é apanhada na origem, quando ainda era uma frase numa sala, e podia ser recusada.

Foi recusada. E seguiu adiante assim mesmo, sem precisar de ser dita.

Fonte do episódio: Laurentino Gomes, 1889.