Negro fugido
Folhetim número 3. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Excertos publicados em folhetim.
Onde estamos
A República foi proclamada a 15 de novembro. Falta agora tirar do país a família que reinava nele.
O Imperador está no Paço, vindo de Petrópolis. Tem sessenta e quatro anos e está doente. Ainda não entendeu que a coisa é irreversível — e quem a fez tem pressa, porque o povo gosta dele.
Mas seria mesmo necessário pactos de sangue? O próprio Imperador se dizia republicano.
E no Rio Grande do Sul, um estado historicamente republicano, por que esconder-se no mato para jurar lealdade a uma mudança de regime? Seria mesmo preciso? Alguns dizem — talvez seja boato — que a reunião aconteceu no mato apenas porque alguém da família não queria conspiradores na casa da fazenda. E essa palavra, conspiração, explica tudo. O problema nunca foi censura aos republicanos nem às suas ideias. Censura, morte e exílio viriam depois. Tratava-se sobretudo de uma tomada de poder que vinha embrulhada na mudança de regime.
Rio de Janeiro, noite de 15 de novembro.
Anoitece sobre o Palácio Real. D. Pedro veio de Petrópolis. A família real ainda não entendeu a irreversibilidade da situação.
Temendo alguma comoção popular, a família real é obrigada a sair às escondidas, na escuridão da noite. Ficam detidos no Paço todo o dia 16. O velho e adoentado Imperador é sacudido de seu leito no meio do sono para levantar-se às pressas e partir sem ser visto pelo povo. Reclama que não quer sair como um negro fugido, mas é assim que sai. Quer uma despedida, não terá. É despachado como o indesejável que se tornara. O Brasil desbravava com brio e distinção um patamar político mais elevado vinculado a uma sociologia científica: a República Positivista.
Em silêncio e escoltada como criminosos, a família real vai para o cais Pharoux às três horas da manhã. Uma lancha do Arsenal de Guerra leva-os até o pequeno cruzador Parnaíba, ancorado próximo à Ilha Fiscal. Lá aguardam a chegada dos três príncipes que estavam em Petrópolis. Os príncipes chegam às dez da manhã do dia 17, acompanhados por André Rebouças. De lá são transportados até a Ilha Grande, onde os espera o paquete Alagoas. O Alagoas é escoltado pelo navio de guerra Riachuelo até um certo ponto.
Para melhor conduzir a opinião pública, jornais espalham o boato de que D. Pedro pedira uma compensação de cinco mil contos ao governo brasileiro. Na verdade, tratava-se de uma espécie de indenização que Deodoro destinara por decreto ao Imperador que, obviamente, recusou. Posteriormente foi dito que D. Pedro desistira do seu pedido sem que, no entanto, a falsidade da notícia fosse devidamente esclarecida.
Do início ao fim, a transição para a República surfou sobre as águas pouco nobres das notícias falsas, das mentiras e traições pessoais. Nada que não fosse o costumeiro pão da política. Apenas um pouco mais sovado e enxovalhado. Mas claro, um terceiro reinado, NUNCA! O Brasil se modernizava.
Continua no próximo número: o sangue que o roteiro pedia, e que ninguém precisava derramar.
Caderno de notas
Repare na hora. Três da manhã, cais Pharoux, escolta armada, o Imperador acordado no meio do sono e posto num navio antes que a cidade acordasse. A República que se anunciava como a chegada do Brasil a um patamar político mais elevado, vinculado a uma sociologia científica, começou por uma operação noturna.
Costuma-se dizer que a República no Brasil veio pacificamente. E veio, naqueles dias. Mas vale perguntar de que sangue os republicanos estavam com medo: não do sangue deles. O derramamento que precisaram evitar era o da reação popular em defesa do Imperador — adorado pelo povo, criticado pela imprensa, desprezado pelo espírito do tempo, caluniado pelo mito. Foi por isso que a família real saiu às escondidas. Não por delicadeza: por cálculo.
E há a frase do Imperador, que é a mais dura da cena e não foi escrita para ser. Ele reclama que não quer sair como um negro fugido. A abolição tinha um ano e meio. O homem que assinara a lei, ou cuja filha a assinara em seu nome, mede a própria humilhação pela condição daqueles que a lei libertara — e não encontra pior comparação para o que lhe estavam fazendo. É assim que sai.
Repare também no boato dos cinco mil contos, e no que ele estava fazendo. Este é o segundo boato do folhetim. O primeiro, o da prisão de Deodoro, fez a República; este a lavou. Um serviu para derrubar, o outro para justificar. Um velho posto num navio às três da manhã não é figura que sustente um regime novo: é preciso que ele tenha pedido dinheiro.
O sangue viria depois. Não porque fosse necessário, mas porque fazia parte do roteiro. Apenas o sangue absolveria os conspiradores na sua tarefa civilizatória: uma genuína revolução social contra qualquer espectro do Ancien Régime só se justifica plenamente se vier banhada em sangue.
É o roteiro francês outra vez, e desta vez na parte que ainda faltava cumprir.
E aqui está o problema de quem cumpre um roteiro cem anos atrasado: o espectro tinha de ser reanimado. Não havia Ancien Régime a derrubar — havia um velho de sessenta e quatro anos, doente, embarcado sem resistência, que se dizia republicano. Era preciso que ele voltasse a ser assombração. Nada como um banho de sangue para reavivar os fantasmas do passado. E, na mesma operação, elevavam-se à categoria de heróis os que os invocavam.