O senhor nunca foi meu amigo
Folhetim número 4. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Excertos publicados em folhetim.
Onde estamos
Passaram-se dez meses. A família imperial está no exílio, e os homens que fizeram a República governam.
Deodoro é o chefe do Governo Provisório. Benjamin Constant, que o convenceu e que fez os cento e dezesseis oficiais assinarem com o próprio sangue, é seu ministro. São amigos de longa data.
Estão para discutir uma nomeação.
27 de setembro de 1890. Sala de Despachos do Palácio Itamaraty.
Na reunião do Conselho de Ministros, explode a luta por cargos, nomeações e prestígio. Uma disputa de forças entre Deodoro e Benjamin Constant termina em insultos e espadas desembainhadas.
— Sr. Generalíssimo, procure outro ministro, porque eu não voltarei mais aqui.
— Pois não volte — grita Deodoro. — O seu protegido já vai ser demitido por mim. O candidato do governador do Rio Grande do Norte será nomeado. O chefe do Governo sou eu, e o senhor é um simples secretário.
— V. Excia. não tem razão. Sua queixa tem uma base falsa. Quando V. Excia. indicou o candidato do governador, o outro por mim nomeado já tomara posse.
— Base falsa tem a sua amizade por mim. O senhor nunca foi meu amigo.
— V. Excia. derrubou o trono para fazer isso que estamos vendo: regime do absolutismo. Isso não é República.
— Nem é República a intrigalhada que o senhor fomenta com os seus ridículos positivistas.
— Eu, intrigante? V. Excia. está perdendo a compostura do seu cargo.
— Nós somos militares, Sr. Benjamin. As questões de honra entre militares lavam-se com sangue. Puxe pela sua espada, que eu vou puxar pela minha.
Deodoro desembainha a sua espada. Benjamin Constant vira-se para o Marechal Floriano, buscando apoio, e diz:
— Ele está louco.
— Louco é você, seu canalha.
Campos Sales segura o braço de Deodoro, e Floriano o de Benjamin. O episódio termina numa crise de dispneia do Generalíssimo.
Alguém diria que faltou ar à República? Se a Monarquia fora diabética, em breve a República passaria de dispneica a cirrótica.
Continua no próximo número: enquanto isso, no Sul...
Caderno de notas
Dez meses. É todo o tempo que a República leva para chegar às espadas entre os homens que a fizeram.
Repare no que está sendo disputado. Não é o regime, não é a Constituição, não é o rumo do país. É uma nomeação — quem fica com um cargo indicado pelo governador do Rio Grande do Norte. Foi por isso que se desembainharam espadas na Sala de Despachos do Itamaraty.
E repare na frase que abre a ferida, porque não é política: Base falsa tem a sua amizade por mim. O senhor nunca foi meu amigo. Deodoro não responde ao argumento sobre a posse do nomeado; responde à pessoa. Diz-se que foi por amizade que Benjamin Constant o convenceu a declarar a República — ele, que era amigo pessoal do Imperador e não queria República nenhuma. Se foi assim, então o que se desfaz aqui não é uma aliança de governo: é a coisa que produziu o regime.
Repare ainda na acusação que cada um faz ao outro, porque juntas descrevem o que veio a ser a Primeira República. Benjamin Constant acusa Deodoro de ter derrubado o trono para instalar o absolutismo, e diz: isso não é República. Deodoro acusa Benjamin Constant de intrigalhada com os seus ridículos positivistas, e diz: nem isso é República. Os dois têm razão sobre o outro. Nenhum tem sobre si.
E há a frase do militar, que é a mesma de sempre: as questões de honra entre militares lavam-se com sangue. Ela aparece aqui como fórmula de duelo, entre dois homens numa sala. Três anos depois estará no Sul, e não será figura de linguagem — serão degolas no campo. A gramática é a mesma; muda a escala.
Duas notas de calendário, e as duas pesam. Deodoro renunciaria pouco mais de um ano depois desta cena, em novembro de 1891, e Floriano — que naquela sala segurava o braço de Benjamin Constant — assumiria em seu lugar. E Benjamin Constant morreu quatro meses depois desta discussão, em janeiro de 1891. O homem que ensinou Comte aos cadetes, que inspirou o Ordem e Progresso da bandeira, que foi o primeiro ministro da Instrução Pública e escreveu reformas que nunca seriam bem cumpridas, saiu de cena com a República ainda com um ano de idade. Não viu nada do que ela deu.
Foi assim entre os novos donos do poder, e este é o clima que interessa registrar: não o das proclamações, o das salas.