C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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O pacto de sangue

Folhetim número 2. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.

*Romance de Miriam GD Freitas, publicado em folhetim.*

*Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.*

Onde estamos

O boato de que Deodoro fora preso corre pelos quartéis do Rio. Não é verdade, mas já não importa. No Clube Militar, o tenente-coronel Benjamin Constant fala aos oficiais. Depois, os republicanos vão à casa de Deodoro pedir-lhe que derrube o regime.

Deodoro é amigo pessoal do Imperador e não quer República nenhuma.

No interior do Clube Militar, o Tenente Coronel Benjamin Constant, 53 anos, exorta os soldados num discurso republicano e positivista:

— Na ausência de nosso presidente, o Generalíssimo Deodoro, eu, como vice-presidente do Clube Militar, comprometo-me, sob palavra de honra, que, se não tirar a classe militar deste estado de coisas que é incompatível com sua honra e dignidade, renuncio a tudo e quebro a minha espada.

Após o discurso, 116 oficiais fazem fila para assinar com o próprio sangue um documento que está sobre uma mesa. Benjamin Constant anuncia:

— Este é o nosso pacto de sangue, que implica morrermos lutando pela República, caso seja necessário.

Terminada a cerimônia, Benjamin Constant volta para casa, onde a família o aguarda. Eles querem ir ao baile da ilha. Tentam, mas, como não foram convidados, sem os ingressos, não são admitidos.

Se não querem, então por que querem? Ou não querem justamente porque querem? Ou, simplesmente, querem? 800 quilos de honra, dignidade, coisas, fardas, 18 pavões, 64 faisões, 700 botões? Quebram espadas, sangram os dedos por este Estado? De coisas?

Hora de promover uma reunião na casa de Deodoro, adoentado, peito coberto de cataplasmas, Deodoro, que nunca estivera preso. Ali se encontram o Generalíssimo, 62 anos, Benjamin Constant, Rui Barbosa, 42 anos, Quintino Bocaiuva, 53 anos, Aristides Lobo, 51 anos, Francisco Glicerio, 43 anos, e Solon Ribeiro, 50 anos.

— Generalíssimo, diz Benjamin Constant, há rumores sobre a sua prisão. O senhor, como comandante das forças armadas, precisa dissolver o ministério do Visconde de Ouro Preto.

— O ataque do Visconde de Ouro Preto ao exército precisa ser detido, diz Solon Ribeiro.

— Eu, preso? Sou um amigo do Imperador. Ando acamado, mas preso, não!

— Considere a extensão da sabotagem às forças armadas promovida pelo Visconde de Ouro Preto, diz Aristides Lobo. Precisamos reagir o quanto antes. Basta de redução do orçamento para os militares.

— A crise chegou a tal ponto que a única saída é a dissolução do ministério, diz Rui Barbosa.

— E, se cair o ministério, cai o regime, diz Benjamin.

— Já fui apoiador da Monarquia, diz Rui. Mas o ministério Ouro Preto é a quinta essência do palacianismo. Excede qualquer limite da imaginação, mesmo nos espíritos mais pessimistas. Nesse regime, as transformações que se fazem necessárias para o desenvolvimento de nossa pátria são impossíveis.

— A República deve ser declarada para sanar os males da Monarquia, diz Benjamin.

— Entendo a necessidade da queda do ministério, mas não vejo necessidade da queda da Monarquia, diz Deodoro.

— Os males do ministério do Visconde são apenas uma expressão dos males da Monarquia.

— Se os rumores continuarem, e a situação não se modificar, eu vos prometo a dissolução do ministério do Visconde de Ouro Preto e sua prisão. Quanto à declaração da República...

— A Monarquia é um regime criminoso. Só numa República se concretiza a igualdade de todos os cidadãos, diz Quintino Bocaiúva.

— Viver pelos outros, viver em todos e cada um como sentimos nossos semelhantes viverem em nós mesmos, eis o verdadeiro destino do homem, diz o positivista Benjamin. A Monarquia separa os homens em nobres e não nobres pelo nascimento. O ideal seria que o próprio Imperador declarasse a República do Brasil.

— A República deve alargar e consolidar a liberdade, não tem de se coser na pele das antigas reações, diz Rui.

— Antes de sermos soldados, somos cidadãos. Somos soldados-cidadãos. A cidadania só se realiza plenamente numa República, diz Benjamin.

12 de novembro de 1889.

Visconde de Ouro Preto em reunião com o Ministro da Guerra e com o Ministro da Justiça.

— Tenho recebido avisos anônimos de que alguma coisa se trama nos corpos da Segunda Brigada.

— Conversei com o Marechal Floriano Peixoto e ele me assegurou que está tudo em paz.

— Então são apenas rumores?

— Podemos ficar tranquilos, diz o outro ministro, porque temos a palavra do ajudante general do exército, Marechal Floriano, segunda autoridade militar.

***Continua no próximo número:** o Imperador chamará Silveira Martins, o velho rival de Deodoro, o homem que lhe ganhava todas, para salvar o Ministério. E o amigo do peito do Imperador, que não queria República nenhuma, montará a cavalo.*

Caderno de notas

O pacto de sangue dos 116 oficiais é documentado. Mas não era o primeiro. Em 31 de março de 1889, sete meses antes desta noite e com o Império ainda de pé, Júlio de Castilhos e treze companheiros já haviam feito o seu, no Capão da Convenção. Houve ainda outro, com cúmplices na Argentina. Os republicanos gaúchos tinham jurado tomar o poder antes que o movimento nacional se decidisse, e o sangue assinado era uma forma que usavam, não o arroubo de uma noite.

Benjamin Constant era professor na Escola Militar, mas não era exceção: o positivismo de Comte era majoritário entre os militares brasileiros. A mesma doutrina que os levou a derrubar o Império será, quatro anos depois, a que Júlio de Castilhos aplicará ao Rio Grande do Sul.

Repare em quem promete calma ao Visconde de Ouro Preto: o marechal Floriano Peixoto, ajudante-general do exército, segunda autoridade militar do Império. Três dias depois da República ele será ministro da Guerra do novo regime. Foi a sua palavra que fez o governo dormir tranquilo.

E repare em Deodoro. Ele diz que é amigo do Imperador e que não vê necessidade da queda da Monarquia. Em três dias vai depô-la.