Sejam eles quais forem
Folhetim número 5. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Excertos publicados em folhetim.
Onde estamos
Enquanto isso, no Sul.
A República tem dias de idade. No Rio Grande, o Partido Liberal é a maioria da província — e o seu líder, Gaspar Silveira Martins, o Tribuno, está exilado. Do outro lado está Júlio de Castilhos, do Partido Republicano Rio-Grandense, e o seu jornal, A Federação.
Os dois lados falam pela imprensa. É a primeira conversa entre eles depois do 15 de novembro.
Porto Alegre, novembro de 1889.
O Partido Liberal, cujo líder Gaspar Silveira Martins fora exilado, manifesta-se no seu jornal, A Reforma:
> O Partido Liberal sujeita-se à força do fato consumado, no patriótico empenho de evitar uma luta civil. O Partido Liberal constitui a maioria da província; é uma força e, como tal, deve ser respeitado.
A resposta de Castilhos não se faz esperar. No dia seguinte, na Federação, escreve:
> A bandeira branca da paz e do amor flutua desde o dia 15, acenando ao patriotismo rio-grandense; ai de quem tentar, sequer, manchá-la de sangue! Não podemos dizer o que será maior: se a nossa tolerância de hoje, se a cólera irreprimível com que castigaremos os criminosos, SEJAM ELES QUAIS FOREM.
Continua no próximo número: as tropas civis dos coronéis, a família que não se meteu em política, e um homem que vai desarmado levando os cavalos que lhe foram exigidos.
Caderno de notas
Leia as duas notas na ordem e repare no que cada uma faz.
A do Partido Liberal é uma rendição. Diz que se sujeita ao fato consumado, e diz por quê: para evitar a luta civil. É a maioria da província pedindo apenas para ser respeitada como maioria. Não ameaça ninguém.
A resposta vem no dia seguinte e é de outra natureza. Começa com a bandeira branca da paz e do amor. Termina com a cólera irreprimível e o castigo. E entre uma coisa e outra não há transição: as duas frases são a mesma frase. A paz é anunciada como ameaça — ai de quem tentar sequer manchá-la. Quem falava em sangue era quem oferecia a paz.
E depois vêm as quatro palavras em maiúsculas, que não são de quem escreve, são de quem imprime. SEJAM ELES QUAIS FOREM. Um castigo que não nomeia ninguém, e por isso pode alcançar qualquer um. Não é lei — a lei nomeia. É aviso.
Três coisas para guardar.
A primeira. O homem exilado, contra quem tudo isso se dirige, era conhecido justamente pelo contrário. No Livro Primeiro, é Joca Tavares quem o diz: pois eu admiro o Tribuno; o oposto de Castilhos; tem a virtude da tolerância, nada de fanatismos, e ama o Rio Grande. É esse o homem que está fora do país quando o seu partido pede para ser respeitado.
A segunda. Repare de que lado vieram, sempre, o esconderijo e a arma. O capão da Fazenda da Reserva, em março de 1889, com o Império ainda de pé — treze homens jurando no mato. As tropas civis armadas, os patriotas, que não eram exército nem polícia. A inversão dos fatos na imprensa. A conspiração, o armamento, o pacto de sangue: nada disso partiu de quem pedia respeito à maioria.
A terceira, e é a que responde à nota da Federação melhor do que qualquer argumento. Quem primeiro decretou um banho de sangue foi o próprio homem que escrevia sobre a bandeira branca — no saque de Bagé.
O general Joca Tavares, destituído do cargo, entregou as armas sem reagir. Entregou-as em troca de uma condição única: que as milícias civis dos coronéis Manuel Pedrosa e Bernardino Totta não entrassem em Bagé. Deram-lhe palavra de honra. Ele desarmou os seus soldados.
O acordo foi descumprido. As tropas dos coronéis entraram, com o apoio de Floriano, e o oficial que estava na cidade foi impedido de agir contra elas. Bagé, desarmada por acordo, virou palco de saques e assassinatos contra a própria população.
Foi esse o estopim da guerra civil. E vale reler, depois disso, a frase de novembro de 1889: ai de quem tentar sequer manchá-la de sangue.