Vossa Majestade
Folhetim número 8. Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Livro Primeiro: a Revolução Federalista, 1889-1893.
Excertos publicados em folhetim.
Onde estamos
A República foi proclamada a 15 de novembro. A família real está no Paço, detida, sem entender ainda que a coisa é irreversível.
Falta comunicar-lhes que têm vinte e quatro horas para deixar o país.
Alguém tem de entrar e dizer isso ao Imperador. Nenhum general quer.
Os generais não entram. Os marechais não entram. Nenhuma das altas patentes que fizeram a República naquela semana atravessa a porta do Paço para olhar na cara o homem a quem serviram a vida inteira.
Mandam o major Sólon Ribeiro.
Ele entra com dois tenentes. A comitiva que o acompanha até ali é maior, mas é toda de patentes inferiores — alferes, entre eles Joaquim Inácio Baptista Cardoso —, e essa fica do lado de fora, esperando.
Pequena, a comitiva, para não chamar atenção.
Um major, dois tenentes e um punhado de alferes à porta. É o que a República envia para depor o Imperador do Brasil.
Dentro, o major tem o documento na mão e não sabe como começar.
— Vossa Excelência...
Corrige-se.
— Vossa Alteza...
Corrige-se outra vez. Está constrangido, e a voz mostra. Trinta e nove anos de Império, e ninguém lhe ensinou como se fala com um Imperador que já não é Imperador. Chega ao fim.
— Vossa Majestade.
D. Pedro estende a mão e pede o papel. Lê devagar. Vinte e quatro horas para partir.
Não levanta a voz. Não pergunta por que, não invoca nada, não pede nada. Quando fala, é com uma calma que beira o frio.
— Se é assim, será a minha aposentadoria. Trabalhei demais. Vou descansar.
A Imperatriz Teresa Cristina cai em prantos e não consegue parar. Está no Brasil há quase cinquenta anos. Criou aqui os filhos. Não é um trono que lhe estão tirando; é a casa.
A princesa Isabel fica indignada com a ingratidão dos militares, e di-lo. Mas mantém a postura, e começa a organizar as malas.
O Conde d'Eu é o único que quer resistir.
— Em Petrópolis há tropas fiéis. Não podem aceitar isto.
D. Pedro desautoriza-o.
Continua no próximo número: às três da manhã, o cais Pharoux, a escolta, e um velho de sessenta e quatro anos que reclama não querer sair como um negro fugido — e sai assim.
Caderno de notas
Ninguém quis entrar.
Comece por aí, porque é o fato mais eloquente da cena e o que menos se conta.
Havia generais. Havia marechais. Havia cento e dezesseis oficiais que dias antes tinham assinado com o próprio sangue um compromisso de morrer pela República. E nenhum deles entrou no Paço para dizer ao Imperador que tinha um dia para sair do país.
Mandaram um major com dois tenentes, e deixaram à porta um punhado de alferes.
Repare no que isso significa em termos militares, porque é uma anomalia. Depor um chefe de Estado é o ato mais grave que um exército pode praticar, e comunicá-lo é atribuição de comando. Não se delega a um major. Foi delegada — e o comando inteiro ficou ausente, deixando que homens de patente insuficiente fizessem por ele a única parte que exigia estar presente.
E a comitiva foi mantida pequena para não chamar atenção.
Esta é a terceira vez, em três dias, que a mesma precaução aparece. A República foi feita com um boato, para que ninguém percebesse a tempo. A notificação foi entregue por uma comitiva reduzida, para que ninguém reparasse. E a família sairá do Paço às três da manhã, escoltada, para que a cidade não acorde.
Não é pudor. É cálculo, e o mesmo cálculo das três vezes: o povo não podia ver. Um regime que se anuncia como a vontade da nação organiza cada um dos seus atos fundadores de modo que a nação não esteja presente em nenhum deles.
Isto não é covardia no sentido comum — esses homens não temiam D. Pedro, que estava doente, cercado e sem exército. É outra coisa, e pior: é vergonha. Sabiam o que estavam fazendo. A doutrina toda — o soldado-cidadão, o viver pelos outros, a igualdade que só a República realiza — não os sustentou diante de uma porta.
E repare no encadeamento com o número anterior. Na noite dos cento e dezesseis, quando Benjamin Constant perguntou o que fazer se a família recusasse, houve quem respondesse fuzila-se. Uma semana depois, nenhum dos presentes conseguiu sequer olhar na cara de quem seria fuzilado. A frase era mais fácil de dizer do que a porta era de atravessar.
As três formas de tratamento.
O major erra duas vezes antes de acertar, e o erro é a coisa mais exata que acontece naquela sala.
Vossa Excelência trata-se um ministro, um funcionário graduado. Vossa Alteza, um príncipe. Vossa Majestade, um soberano. Sólon Ribeiro tateia entre os três porque, naquele instante, não há palavra certa — o homem à sua frente ainda é Imperador quando ele entra e já não é quando ele sai, e a língua não tem tempo verbal para isso.
Ele acaba por acertar. Chama-o de Majestade, e é assim que o depõe. É a última vez que a palavra é dita a alguém no Brasil com o sentido que tinha.
O constrangimento dele não é falta de instrução. É a gramática a ceder debaixo dos pés — e a cena inteira cabe nessa hesitação.
A resposta.
Esperava-se — o roteiro pedia — indignação, protesto, alguma coisa que fizesse daquilo um confronto. Ele responde com a palavra aposentadoria.
É devastador, e é preciso ver por quê. Chamar aquilo de aposentadoria é recusar-lhe a categoria de acontecimento histórico. Não é a queda de um regime, não é uma revolução, não é o Ancien Régime a desabar sob o peso do futuro: é um funcionário velho que trabalhou demais e vai descansar. Numa frase, ele retira aos conspiradores exatamente aquilo de que mais precisavam — a grandeza do que estavam a fazer.
E é por isso que o espectro teve de ser reanimado depois, e por isso que veio o sangue. Um homem que responde vou descansar não serve de Ancien Régime a ninguém.
A que ficou de fora da conta.
Teresa Cristina chora e não consegue parar, e é a única pessoa daquela sala cuja reação é proporcional ao que está a acontecer.
Estava no Brasil havia quase cinquenta anos. Chegou moça, num casamento arranjado com um homem que não a escolheu. Criou aqui os filhos. Não perdeu um trono — perdeu a casa, o clima, os mortos, as manhãs conhecidas. Morreu em Portugal um mês depois de chegar.
Um mês. Nenhum documento chama a isso uma consequência da Proclamação, e é o que é: a primeira morte da República, e ninguém precisou de fuzilar ninguém.
O que o Conde d'Eu disse, e que ninguém quis ouvir.
Havia tropas fiéis em Petrópolis. Ele quis usá-las, e foi desautorizado pelo sogro.
Vale parar um instante nesse ponto, porque é onde o dia podia ter sido outro. Não se sabe o que teria acontecido — talvez a resistência ruísse em horas, talvez o país se partisse numa guerra civil quatro anos antes da que veio. O que se sabe é que a alternativa existiu, foi enunciada em voz alta dentro daquele quarto, e foi recusada pelo próprio Imperador.
De modo que a República não venceu uma resistência: recebeu-a de presente. Foi feita por homens que não conseguiam entrar numa sala, contra um adversário que se recusou a resistir.
E é essa a origem que os quatro anos seguintes vão passar a corrigir, no Sul e depois no sertão — inventando com sangue a legitimidade que a noite de 16 de novembro não lhes deu.
Fonte do episódio: Laurentino Gomes, 1889.