C Cadernos de Antônia1889 — 1930
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Neutralidade & objetividade

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Uma tipologia da epistemologia leva ao discernimento entre diferentes abordagens do conhecimento, seja qual for a área: científica, política, social, estética, técnica etc. O século XIX, com o seu primado de causas únicas, exteriores aos fatos, produziu uma das versões mais persistentes e difundidas, definindo uma forma epistemológica ideal. O positivismo de Augusto Comte entendia que o único conhecimento válido era o científico, a ser obtido pelo modo empírico, com uma rígida separação entre sujeito e objeto. A linguagem deveria ser matemática e lógica, segundo o modelo das ciências exatas, voltada a uma descrição de fatos e à abstenção absoluta de julgamentos morais. Max Weber recusa essa concepção para as ciências sociais, alegando que a ação humana exige compreensão do significado, e mostrou como a objetividade pura é impossível, desde a escolha do objeto de estudo e o recorte dos dados.

Não se trata de discutir em profundidade nenhuma dessas posições, apenas de indicar que representam duas tendências históricas que se confrontam secularmente sob diferentes versões. Um exemplo anterior é a divergência de abordagem das ciências entre Pascal e Descartes; antes ainda, a oposição entre empirismo e racionalismo protagonizada por Aristóteles e Platão, supostamente "resolvida" por Kant. Kant se apoia na grande revolução científica realizada por Galileu e Newton, que derrubou a física aristotélica dominante por quase dois mil anos, reunindo empirismo e racionalismo segundo a oposição sujeito-objeto e criando categorias da razão que supostamente limpam o sujeito dos desvios da subjetividade. É a diversidade dessas tendências o que permite desenhar formas que se alternam e se enfrentam historicamente, criando a possibilidade de uma tipologia de diferentes epistemes. O que há em comum a todas elas é a busca da objetividade, variando quais os elementos que podem ou não participar dessa busca, qual o modelo mais adequado, qual a linguagem a ser utilizada.

Conhecemos a escolha do positivismo de Comte, que leva a uma exigência de neutralidade do observador calcada no modelo das ciências naturais como o padrão-ouro para um conhecimento objetivo. De tudo isso nasce uma confusão entre neutralidade e objetividade, ao ponto de perder-se a distinção entre essas duas palavras. Bem antes de discutir os modelos específicos e seus pressupostos (é possível — ou mesmo razoável — aplicar o modelo das exatas às ciências humanas, ou Max Weber tem razão?), é necessário distinguir entre neutralidade e objetividade.

Essa confusão é anterior a qualquer escolha de modelo epistemológico, e por isso nenhum modelo a desfaz sozinho. Ela deriva de uma cisão antiquíssima, a que separa sujeito e objeto. Posto o sujeito fora do objeto, ser objetivo passa a significar estar ausente, e objetividade e neutralidade tornam-se a mesma coisa: a distinção entre as duas é forcluída antes mesmo de poder ser pensada. Os modelos que recusam essa cisão — Spinoza, Wittgenstein, Benjamin, cada um no seu registro — não abrem mão da objetividade; abrem mão da neutralidade, que sem a cisão não tem onde se apoiar. Para Benjamin, o passado só se deixa ler por quem está implicado nele, num momento de perigo. O ensaio A gramática do turbilhão mostra o parentesco entre os três.

Não é difícil. A sabedoria de Salomão é o caminho mais seguro. O Livro dos Reis relata o episódio das duas mulheres que brigam por uma criança. As duas tinham dado à luz um bebê, e o bebê de uma delas morreu. Ambas alegam que a criança viva é a sua. Salomão coloca-se fora de um julgamento de valor: é impossível saber quem tem razão, quem mente, quem fala a verdade. Cortem a criança ao meio. Nada mais imparcial: o juiz revela-se neutro, a sentença não escolhe lados, distribui os valores — verdade e mentira — igualmente, metade para cada litigante. Uma das mulheres aceita a sentença; a outra reage: prefiro que a outra fique com o bebê, mas não o cortem ao meio. A segunda sentença é a definitiva: a mãe é essa.

Aqui não importa saber se a mãe biológica de fato era a que preferiu perder a criança a destruí-la, ou simplesmente se era a pessoa que, objetivamente, apresentava as melhores condições para ser mãe. Esta é a enorme distância entre neutralidade e objetividade. Tomando a criança como uma alegoria da justiça, o que a sabedoria do Rei expressa é que só há verdadeira justiça quando a verdade entra integralmente no julgamento: um julgamento, para ser justo, precisa da verdade íntegra, a verdade viva. A verdade não pode ser repartida em pedaços, onde cada lado recebe o seu quinhão, como uma peça morta.

Por isso, este site não aspira a qualquer neutralidade. Busca-se recolher os fatos, os dados empíricos, sem para isso aposentar nem a racionalidade nem os valores, sem qualquer pretensão a uma perspectiva angelical, buscando um desenho mais objetivo do que foi a Origem da República brasileira.