Abstract e overview do argumento. Read in English
Euclides da Cunha chamou Canudos de a nossa Vendeia. Este livro toma a frase ao pé da letra e faz dela um método. Se a França fez a sua revolução em 1789 e o Brasil em 1889, então a Vendeia de 1793 encontra a sua correspondência na Revolução Federalista de 1893 — e Canudos e a Federalista passam a ser legíveis como duas fases de uma mesma Vendeia brasileira. A correspondência não é analogia nem influência: é imagem dialética no sentido exato de Walter Benjamin, uma constelação em que dois tempos se reconhecem sem que um cause o outro. Daí decorre a recusa que organiza o livro: a de explicar a queda da Monarquia por uma causa profunda. Nenhuma totalidade pode ser causa nem efeito. Dentro das totalidades há cadeias causais que funcionam — um telegrama chega, uma tropa marcha, um homem morre —, mas a economia, a sociedade ou o espírito da época postos no lugar da Causa não explicam: dão um nome à soma e chamam isso de razão. No lugar da causa, o livro põe a Origem — o Ursprung que Benjamin descreve como um turbilhão no rio do vir-a-ser, forma que se mantém enquanto a matéria a atravessa, sem substância própria e mesmo assim real. Lida assim, a Primeira República brasileira aparece como o que foi: um golpe político e ideológico feito por um grupo pequeno em estado de excitação doutrinária, cumprindo um roteiro francês declarado, discutido nos jornais e executado com a seriedade de quem cumpre um programa — a guilhotina virando degola. E as suas figuras máximas, Floriano Peixoto e Júlio de Castilhos, revelam-se soberanos barrocos no sentido do Trauerspiel: o tirano, o mártir e o intrigante confundidos numa só pessoa, que retira da própria pureza a licença para tudo o que faz.
Walter Benjamin · imagem dialética · Ursprung · Trauerspiel · história natural · Euclides da Cunha · Canudos · Revolução Federalista · Vendeia · Primeira República brasileira · Júlio de Castilhos · Floriano Peixoto · positivismo · Goethe, teoria das cores · sistemas complexos
O livro abre por onde ninguém espera que um livro sobre a Primeira República abra: por sistemas complexos e pela teoria das cores de Goethe. Não é ornamento nem erudição avulsa. É a posição a partir da qual tudo o mais se decide.
O século XIX foi o século das chaves únicas. Comte encontrou três estados, Marx a economia, Freud a sexualidade, Taine a raça, o meio e o momento — cada um com a sua chave, abrindo com ela todas as portas. E não se trata de um debate distante: era a doutrina de Comte que Benjamin Constant ensinava aos oficiais da Escola Militar e que Júlio de Castilhos aplicaria ao Rio Grande do Sul. Ordem e Progresso, na bandeira, é uma teoria da história de causa única escrita em pano.
Contra isso, Goethe. Newton passa a luz pelo prisma e explica o que se vê por aquilo que está atrás; Goethe recusa o movimento e detém a explicação no fenômeno — o Urphänomen, em que todo factual já é teoria. Benjamin retira esse conceito da natureza e faz dele conceito de história: a Origem, que não é começo cronológico e não é causa, mas forma que se reconhece num acontecimento. Para dizê-la ele escolheu uma imagem exata, o turbilhão no rio do vir-a-ser: a água que o compõe num instante já não é a mesma no seguinte, e ele continua o mesmo turbilhão. Não é causado pelo escoamento nem se esconde atrás dele. É uma forma que o escoamento assume — e produz efeitos. Benjamin escreveu isso nos anos 1920, quando a turbulência era o escândalo não resolvido da física e faltavam quarenta anos para a matemática do caos existir. Foi buscar a única imagem que já continha o argumento antes de haver ciência dela.
Com esse instrumento, o livro lê o caso brasileiro. Não linearidade, dependência sensitiva às condições iniciais, efeitos radicais produzidos por alterações mínimas e acidentais: a fenomenologia do caos descreve melhor o 15 de novembro de 1889 do que qualquer determinação profunda. Deodoro era amigo pessoal do Imperador e não queria República nenhuma; o boato falso de que fora preso correu de quartel em quartel e fez mais do que qualquer programa. Questões econômicas e sociais estavam presentes, evidentemente — mas arrastaram-se por todo o processo sem que o governo decidisse resolvê-las, porque estava inebriado com a constituição do regime novo.
E então a imagem dialética. Não se trata de dizer que a França causou o Brasil, nem que a repetição fosse necessária. Trata-se de reconhecer uma forma que se repete em escala diferente — um fractal de um século no outro. Se lá 1789 e cá 1889, então lá 1793 e cá 1893. Os republicanos brasileiros não estavam sendo comparados a franceses por um historiador posterior: estavam cumprindo o roteiro deliberadamente, e disseram-no. Cento e dezesseis oficiais assinaram um pacto com o próprio sangue no Clube Militar; sete meses antes, com o Império ainda de pé, Júlio de Castilhos e treze companheiros haviam jurado o seu num capão do Rio Grande do Sul. Silva Jardim pedia o fuzilamento do Conde d'Eu. E o biógrafo admirador de Castilhos, Sérgio da Costa Franco, encontra apenas dois heróis comparáveis a ele: Floriano Peixoto e Robespierre — um Robespierre, escreve em tom de celebração, que não teve o seu 9 Thermidor e morreu em triunfo. O modelo é francês, a medida é francesa, e quem a usa é o admirador.
Daí a inversão que o livro desfaz. Durante décadas acusou-se a cultura brasileira de macaquear o estrangeiro — Aquarela do Brasil desqualificada por cívica demais, o Carinhoso de Pixinguinha tratado como imitação de americano —, enquanto a política se declarava nacionalíssima e genuína. Estava exatamente ao contrário. Quem copiava era a política. O acusado foi o Pixinguinha.
A última parte do livro nomeia o que essas figuras são. Há uma descrição desse tipo de homem, e ela vem do teatro barroco do século XVII que Benjamin estudou: o espírito comprova-se no poder, e exige ao mesmo tempo disciplina interna rigorosa e atividade externa sem escrúpulo — frieza absoluta por fora, calor ardente da vontade de poder por dentro. O palco barroco tinha três figuras que ali se confundem: o tirano, o mártir e o intrigante. Floriano e Castilhos são os expoentes máximos disso na modernidade republicana brasileira — santos que intrigam, que retiram da própria pureza a licença para tudo. Castilhos apresentava-se com a imaculada pureza de intenções e daí tirava o direito de tutelar o povo sem obrigação nenhuma de representá-lo: o puro não precisa de mandato. É uma leitura muito mais próxima de Carl Schmitt do que de Benjamin — e é precisamente por isso que Benjamin é necessário para fazê-la.
O que se segue disso é história natural no sentido benjaminiano: leis desprovidas de transcendência e atoladas em interesses privados, atualizando-se como natureza, reciclando padrões petrificados no ciclo vicioso de decomposição e recomposição de um regime mal-nascido, em retornos do sempre mesmo. Décio Freitas defende que Castilhos estabeleceu a primeira ditadura constitucional da América Latina e que ela serviu de molde a 1937 e a 1964. As ditaduras mudam de cara e de corpo, ora jurídicas, ora forças externas, mas não deixam de devorar a nação: vieram no bojo da República.
O livro fecha com uma frase que é também o anúncio do terceiro volume da trilogia, e que passa a Musil: a nossa república foi talhada nas linhas essenciais do crime e da loucura.